Um ser estático observa a dança do tempo
sentado em sua cadeira de plástico.
A sacada é transcendente.
Apoio metafísico.
A metáfora perfeita para
um ser preso e alheio
à passagem do tempo.
O mundo gira, mas a sacada continua ali,
inexorável.
Pedra dura.
Sustento para o corpo inerte
que só observa.
quinta-feira, 19 de outubro de 2017
domingo, 2 de abril de 2017
Duelo na Madrugada
Foi depois da 1h da manhã. Eu
estava com insônia e decidi tentar dormir ouvindo um Jazz ou Blues. Mas havia
esquecido meus fones de ouvido no carro. Fui buscar. A rua estava sem
movimento, claro. Era um bairro pacato, porém haviam relatos de assaltos à mão
armada na região recentemente. Não dei ouvidos.
Fui até lá e entrei no meu Celta para
buscar os fones. Estava com dificuldade de encontrá-los. De repente, escutei um
carro subindo a rua; ele parou subitamente à frente do meu. Achei estranho e
desliguei a luz interna. O carro permaneceu imóvel: era um Palio detonado, cinza.
Coloquei a chave na ignição, só por precaução. Fiquei observando. O carro
permaneceu ali, fumegando levemente na garoa da madrugada.
Era uma leve descida, se algo
suspeito fosse de fato acontecer, bastaria eu abaixar o freio de mão e estaria em
movimento. A minha barriga esfriou, meu coração aumentou o ritmo, tirei os
chinelos e pus o pé no acelerador, só por via das dúvidas.
O carro ameaçou partir.
“Desistiu”, pensei.
Mas o Palio demoníaco desceu até
quase ficar paralelo ao meu carro.
“Ele vai me perguntar alguma
coisa? Me assaltar? Ou apenas olhar com seus olhos negros a minha face de
desespero!?” Como não enxergava o motorista, não consegui avaliar minhas
chances de sobrevivência.
O vidro era negro como a noite. Ele
parou antes que eu pudesse observar quem, ou o quê, estava ao volante. Permaneceu
mais alguns segundos ali. Eu estava estacionado em frente a um prédio
residencial, algumas janelas estavam acessas. O resto era só deserto, silêncio
e chuva. Pensei em gritar por socorro, mas apenas observei.
O monstro tornou a subir
vagarosamente a rua ligeiramente inclinada. De súbito, começou a acelerar e
frear, sem sair do lugar. Apenas fazendo barulho com o motor. “Está me desafiando
para um racha? ”. O Mistério sufocava-me,
a garoa e o frio montavam o clima perfeito para uma corrida ilegal, um terror
macabro ou um assassinato qualquer.
O não saber começou a me roer por
dentro: O QUE ELE QUER? O carro cinza começou a fazer a manobra para
estacionar. Ou ele vai estacionar na minha frente ou fazer o “U” e ficar de
frente comigo; posição perfeita para sacar a pistola e tirar a minha vida.
Ele hesitava. Já se passaram um
ou dois minutos naquele duelo nas sombras. Cada um em suas caixas de metal,
esperando a movimentação do outro. Ele estava indeciso.
“Talvez o motorista more aqui e
seja ele quem está com receio de mim: um estranho, sozinho, fuçando em um carro
parado na rua no meio da noite”. Quem, em sã consciência, não pensaria duas
vezes antes de estacionar o carro bem à frente de um potencial psicopata?
O jogo se inverteu. Eu era a
ameaça maior agora – hipoteticamente, claro. Ele não percebeu, mas eu
estava de pijamas, de chinelo e apreensivo.
Talvez o pequeno recuo há pouco era somente uma tentativa de me identificar ou
ver o que eu estava fazendo.
Tudo se resolveu no instante
seguinte: o carro embicou na calçada, quase batendo no portão da garagem do
predinho. Voltou, agressivamente, de ré e ficou atravessado na rua. É agora,
ele resolveu fazer o U e me matar. Vou morrer por causa da porra de uma insônia e
da idiotice por ir buscar fones de ouvido. Minha morte será manchete nos jornais:
MORRE ESTUDANTE QUE
FOI BUSCAR SEUS FONES DE OUVIDO NA MADRUGADA
VESTINDO APENAS SAMBA
CANÇÃO – E SEM CUECA - ELE FOI BALEADO DUAS VEZES NA CABEÇA.
O FONE DE OUVIDO
CONTINUA PERDIDO.
Estava em pânico. Ele havia
fechado a minha passagem pela frente: teria que manobrar de ré, contra a subida. A porta se
abriu e uma fumaça cinza, provavelmente causada pelo calor das chamas do inferno,
se espalhou, encobrindo o motorista. Contornando pela frente do carro,
vagarosamente como um monstro que já fez sua presa, revelou-se uma senhorinha
de uns 70 anos. Ela andava com dificuldade para abrir a garagem do prédio.
Voltou ao carro com seus passos curtos. E, com certa dificuldade, conseguiu
manobrar para entrar na garagem e desaparecer dentro do condomínio.
Minha insônia foi curada naquela
noite.
sábado, 4 de março de 2017
Amor de Prateleira
O "Eu Te Amo" virou commoditie. Encontrado em promoção em qualquer esquina. O Amor, produzido em massa, é industrializado e empacotado numa embalagem bonita. Vazia. E não tem problema se quebrar ou não funcionar. Hoje em dia tudo tem garantia: é só trocar por outro.
Vejo o bem mais precioso da humanidade, distribuído em amostras grátis. Apenas em edição limitada. O para sempre dura só até o próximo lançamento. Depois, sai de linha. Mas só até vir a nova edição de carnaval.
Se acabar o estoque? Quem coleciona amor hoje em dia?
Marcadores:
amor,
casal,
Conto,
existência,
falta,
ironia,
limitado,
melancolia.,
poema,
produto,
saudade,
triste,
vida
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
Estranhos
![]() |
Foto: Raul Lieberwirth
|
João e Maria se casaram há muito
tempo - uns 2 anos. Se conheceram quando corriam no parque da cidade. Começaram
a correr juntos, e a paixão corria com eles. Na verdade, a relação foi toda
corrida: em 3 meses foram morar juntos, em 5 estavam noivos, em 8, casados.
Depois que a paixão explosiva
passou, os dois começaram a se estranhar e os problemas começaram. Uma vez,
Maria saiu para beber e acordou meio atordoada, com um desconhecido na cama.
- Meu Deus, o que foi que eu
fiz!? - Sussurrou, caindo de susto no chão.
Ligou para sua melhor amiga:
Ligou para sua melhor amiga:
- FÊ! Fiz besteira...
- O que aconteceu, Má?
- Acordei com um estranho na
minha cama... o que eu faço?
- É gostoso?
- Meio barrigudinho.
- Putz... já contou pro João?
- João? – Ela olhou para a cama
de novo – Nossa, esquece, devo estar bêbada ainda.
(Não estava)
Aconteceu o mesmo com João quando,
num domingo qualquer depois do Futebol, levara os amigos para casa para tomar
uma cerveja e assistir ao jogo do Corinthians. Quando ele abriu a porta e olhou
para a cozinha, deixou cair a bola e o queixo com o susto. Voltou rapidamente e fechou a
porta atrás dele.
- Meeeu! Tem uma mulher na minha
cozinha!
- É gostosa? - Perguntou
Marquinhos.
- Tem a perna meio fina.
- E cadê a Maria, cara? -
Perguntou Carlão.
- Maria? – Ele abriu a porta e
analisou a mulher fazendo panqueca -
Eita, acho que tô desidratado da pelada.
(Não estava)
Outra vez, Maria chegou em casa e
viu um cara fuçando no guarda-roupa do quarto, bem na gaveta das roupas intimas.
Ela, apavorada, correu para o telefone e ligou para a polícia:
- Um cara invadiu a minha casa e
tá roubando as minhas calcinhas!
- Amor! - Gritou João, do quarto
– Cadê a minha cueca de elefante!?
- Ah... esquece, é meu marido - E
desligou o telefone.
Tanta era a estranheza que isso ainda
se repetiu uma última vez. João, chegando do trabalho, encontrou alguém assistindo
sua T.V.
- O quê? Quem é você!? – Disse,
surpreso.
- Eu? Quem é você!? E o que está fazendo aqui!? – Maria gritou com o louco que
invadira sua casa.
- Eu sou o João, eu moro aqui.
- Não mora não, eu que moro aqui!
Maria falou com tanta convicção
que João achou que tinha cometido um erro mesmo.
- Nossa, acho que errei de
apartamento então, minha senhora, desculpe - deu meia volta e saiu.
Maria parou para pensar no que
tinha acontecido. Percebeu algo de errado. Fez uma cara de brava e
falou consigo mesma:
- Pera aí, não acredito que
aquele idiota fez isso ... Senhora!? Fala sério, que babaca. Senhora é o
cacete.
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
Lagrima de Luz
Chegou à porta de sua casa, colocou a chave na fechadura enferrujada e a girou. Ela fez um ruído quando se abriu. Acendeu o abajur no rack de madeira da sala. Tirou um sapato de cada vez, primeiro o direito e depois o esquerdo. Tirou as meias; desabotoou a camisa social amarrotada e suada; desfivelou seu cinto preto desgastado; tirou a calça devagar - não tinha pressa. Dobrou com muito carinho as roupas e as empilhou na cadeira. Enrolou o cinto e o pousou na pilha. Deixou a carta em cima da mesa. Puxou a outra cadeira e se sentou, sozinho, na escuridão da sala, observando o vasto nada que jazia à sua frente. Chorou.
A única testemunha de sua solidão era a tênue e frágil luz do abajurzinho; que se pudesse, choraria também.
![]() |
| Foto: Maurício Campos |
domingo, 22 de janeiro de 2017
A Garota dos Cabelos Vermelhos e as Quatro Danças do Amor
Busco escrever sobre ela. Mas
nada me vem à cabeça. Simples palavras nunca serão suficientes para aprisioná-la
em minha folha de papel ainda em branco. Então, procuro escrever sobre outra
coisa qualquer, para não ousar escrevê-la, mas escrevendo sobre ela.
Tento esclarecer a neblina em
minha mente, depois desse leve devaneio. Mas eis que ela me chega: turva, mas
transparente; simples, mas complicada; absolutamente como ela é e sempre vai
ser. Como falar da menina que rouba minhas palavras? Não ouso roubá-las de
volta. Quem sabe das consequências disso? Talvez não voltem minhas, mas dela. Talvez
voltem tão minhas, que pertençam a ela.
Faço meu bolo de caneca, que fica
pronto em um minuto e dez no micro-ondas e depois pego uma garrafa d’água na
geladeira branca atrás de mim. Procuro me distrair, mas é difícil tirar da
mente aquilo que se quer esquecer. Sendo assim, a
única paz que encontro é escrevê-la. Já havia decidido fazer isso, agora já
era.
---------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Proponho uma dança: eu e ela, ao som da música criada com meus dedos pulando de tecla em tecla. Conforme nos conduzimos - pas de vous, avec vous, je danse –, deixo que ela entre cada vez mais em meus pensamentos já dominados. Cada passo me deixa mais próximo de seu corpo em chamas, e melhor consigo ver sua máscara. Nesse ritmo descompassado a dança se torna cada vez mais um cabo de guerra, cada um entrando para dentro do outro. Perigoso isso. Hesitei, perdi o passo e quase fui engolido por sua ferocidade. Consegui me conter. Tomei-a nos braços, ignorando o fogo. Deitei-a sobre mim para tornar-se seu apoio. E vi o primeiro fragmento de sua máscara descolar-se de seu rosto lindo.
Fim da primeira dança
Quando tomamos consciência, ela
desapareceu em meio ao escarcéu que nossa dança causou. Então, notei que o
salão estava lotado. Ela estava se escondendo de mim. Recuou ao perceber que a
vi por trás de sua máscara, mesmo que de relance. Não deixava muitos olharem
sua verdadeira face. Atrás daquela máscara confiante e impenetrável, jaz um
lindo rosto frágil e belo.
Tenho um tempo para me recompor. Mas
logo um cenário já começa a se formar: pessoas começam a aparecer para ver-nos
dançar. O salão enche. Estralo meus dedos, me preparando para uma coreografia
um pouco mais elaborada, mais estratégica, mais detalhada e rítmica. A próxima precisa
ser dançada com cautela, é o momento de estudar o oponente.
Enfim ela volta, sua expressão de
confiança e sua postura austera me dizem que ela também está aqui para me
estudar; me avaliar e me provar. Ela avança para cima de mim com rapidez e
graça, tentando me fazer recuar. Sou teimoso e não dou um passo para trás, mas retribuo
a investida. Essa dança será lenta, quase como uma valsa. Mas não chegamos tão
perto um do outro. Essa é hora para nos conhecermos.
Todos os olhos estão em nós, isso
dificulta um pouco a concentração. É algo novo, alguns criticam, outros
incentivam, alguns ainda tentam interferir, tomando a de mim. Desta vez não houveram
falhas nem tropeções, a dança foi sutil e rápida. Fui aprovado.
Fim da segunda dança
A terceira foi a melhor, não
dançamos para ninguém além de nós. Em nenhum desses salões lotados de gente
bisbilhoteira. Dançamos no quarto, a luz tênue da lua era a única que nos
assistia. Quando começou, nos livramos de nossas roupas pesadas e desnecessárias,
nos livramos de tudo que estava por trás da porta fechada do quarto, nos livramos
de nossas mentiras - não para trocarmos nossos segredos, mas porque estávamos
criando um só nosso.
Essa dança apaixonada seguia o
nosso ritmo: intenso, puro. Bailamos na cama até não existir nada além dos
nossos corpos juntos, interligados e quentes. Apaixonados em meio aos lençóis
durante a noite inteira. Nossos movimentos eram sincronizados; nossos giros de
paixão eram súbitos; nossos beijos, intensos. Ao som de suspiros do amor,
dançamos e dançamos.
Nessa noite criamos a nossa
própria coreografia, e a executamos perfeitamente. Ofegantes, trocando olhares,
sem reparar nas máscaras – agora quase imperceptíveis – que ainda cobriam
nossos rostos. Inertes, nos deitamos e olhamo-nos. Eu a via quase por inteiro,
seus lábios vermelhos, seu queixo fino e suas bochechas rosadas; seus olhos,
ainda contornados pela máscara vermelha, escondiam um brilho intoxicante.
Precisava vê-los.
Fim da terceira dança
Ainda era preciso mais uma para
conseguir tirar-lhe a máscara. Esta dança precisaria ser em seu coração - com
cuidado para não quebrar nada. Escolhi a coreografia: perigosa e proibida.
Precisaria dar meu máximo, sem errar, sem hesitar e, mais importante, sem me
perder em seus passos flamejantes.
Que comece.
Puxei-a para cima de mim. Girei-a
e a arremessei para cima, perfeitamente sincronizado com seu carpado, segui a
coreografia com exímio. Sabia qual era o próximo passo para desmascará-la completamente. Ela aterrissou em meus braços, com meu peito encostado no dela; com
meu braço esquerdo a segurando pelas costas a inclinei para trás, deixando-a
nas pontas dos dedos. Ela finalmente confiava completamente em mim, estava
relaxada em meus braços. Era, enfim, minha. Subjugada por minha insistência. Em
seu rosto, o último pedaço da máscara vermelha - que produzia um
contraste enorme com a cor de sua pele branca - ainda contornava seus olhos
gigantes e castanhos. O último pedaço antes de revelar seus mistérios. Desnuda,
seria possível escrevê-la por inteiro. Deslizei lentamente minha mão por sua
barriga, depois seu busto macio, seu pescoço, seu queixo fino, tomei tempo em
seus lábios deliciosos, cada dedo teve seu tempo antes de continuar por seu
rosto, até chegar no fragmento vermelho que ainda faltava para despi-la.
Congelei. Meu coração batia
forte, finalmente depois de todas essas danças, consegui o que queria, o que
muitos já quiseram e não conseguiram. Iria vê-la por inteiro, sem uma máscara
cobrindo suas verdades. Segurei a máscara, só faltava puxá-la e ela iria se
revelar para mim.
Respirei fundo, engoli seco. O
momento havia chegado e eu não conseguia tirar a máscara. Deixei aquele pedaço
com ela. Meu medo de despi-la, de revelar suas verdades, me venceu. Ignorei
tudo o que mais desejava, para poder continuar dançando.
Absorto em seus passos, sua
respiração, seu fogo... seu amor. Não reparei que a minha máscara já havia se
perdido há tempos. Ela me via por inteiro, encarava meu âmago. Não tinha medo,
olhava o abismo em mim, destemida. Queria ter forças para despi-la, assim como
ela tinha feito comigo, não sei quando. Mas fraquejei.
Os passos se perdiam. Não tinha a
força necessária para continuar. Não suportei os giros, as chamas. Minha alma doía,
por mais que quisesse, meus passos não a acompanhavam mais. Eu havia me perdido
tentando encontrá-la. Tropecei em seu amor, e caí.
Fim da última dança
Marcadores:
amor,
Conto,
Dança,
Lírico,
literatura,
namoro,
Poesia,
relacionamento,
ruiva,
sexo,
texto,
vida
domingo, 15 de janeiro de 2017
Mediocridade Fatal
Deitado na
cama, ele observava o céu estrelado mesmo através do teto grosso de cor acinzentada que, aos seus olhos, parecia não existir. Não via o que realmente estava à sua frente, mas sim o que está escondido além do horizonte, o que só quem sonha é capaz de ver.
Sua fisionomia,
irrelevante; suas feições, sem importância; sua beleza, inexistente; sua
presença, invisível. A única coisa na qual se destacava dos outros era em sua
habilidade rara de sonhar. Seu nome, assim como sua presença física, é indiferente
à história. Tente não imaginá-lo. Se não conseguir, imagine alguém cuja
existência seria ignorada por você e que por mero acaso do destino te esbarrou
na rua. Assim, e somente assim, seu rosto seria visto por alguns míseros
segundos e esquecido assim que você voltasse a sua distraída caminhada.
Sua linhagem está
fadada ao esquecimento. Seu pai, um carteiro de 59 anos ainda não aposentado. Sua mãe, uma secretaria em uma micro consultoria. Ambos simples ferramentas utilizadas
como meio de transporte de informações. Tão facilmente substituíveis quanto uma
roupa de baixo suja. Existem apenas enquanto carregam informações a seus destinatários. Após a entrega, desaparece-lhes a vida emprestada. Seus avós? Há tempo já esquecidos. Seus irmãos? Se tiver,
desconheço.
Voltando a ele,
deitado, olhando o teto e vendo estrelas longínquas. Sonhando mudar o mundo. Primeiro,
sonhou em inventar uma cura para doenças ainda incuráveis. Trabalhando em uma
lanchonete qualquer, tentando bancar seus sonhos, não tinha dinheiro para
comprar livros, estudar ou sequer comprar materiais para experimentar.
Desistiu desse sonho. Agora já não via tantas estrelas.
Sonhou depois em
ganhar o grande prêmio Nobel da paz. Ser visto como um modelo a ser seguido.
Mas não era visto nem por quem estava à sua frente e muito menos havia paz
dentro de sua própria mente agitada. Então, desistiu desse sonho também. Agora, começou a enxergar uma projeção transparente de um teto, quase como um vidro.
Sonhou simples
dessa vez: queria fazer medicina. Como não tinha dinheiro, pois trabalhava em
uma lanchonete qualquer - que comprava seus hambúrgueres do mercadinho da
esquina, que os comprava dos rapazes da rua de baixo, que, por sua vez, os
roubavam da fábrica de carne do outro quarteirão e os vendiam pelo
preço que realmente deveriam ser vendidos para a lanchonete - que não o pagava como deveria ser
pago. Não podia fazer aulas particulares e nem entrar em uma faculdade particular.
Estudou sozinho, ser ter quem o ajudasse. Mesmo assim, estudou muito, mas o
vestibular, assim como todas as outras entidades deste planeta, não notou sua
presença. Logo, desistiu desse sonho também. Agora surgiu uma mancha
acinzentada que tapava-lhe a visão das opacas estrelas, que estavam cada vez mais
longe.
Sonhou menor dessa
vez. Com algo que não precisasse de muito dinheiro e nem de muitos estudos. Bastava
vontade - e isso ele tinha de sobra. Queria fundar uma ONG. Faltava-lhe uma causa
e gente que quisesse ajudar. A causa, achou sem problemas. Quem quisesse o
ajudar, teve problemas em achar. Não demorou muito até que desistisse desse
sonho também. E assim, o teto tornou-se dolorosamente visível; a única luz que
era possível enxergar agora - quase totalmente absorvida pelo teto acinzentado
- era a luz alaranjada que saía do abajur barato, que jazia sobre a cômoda
ainda mais barata ao lado da cama, que até hoje não se sabe como conseguia
suportar o peso do saco d'água que nela se deitava todas as noites.
Por fim, passou a
ter o sonho - gigante ou minúsculo - de simplesmente existir. Era voluntário em
um desses restaurantes que servem comida por um real. Mesmo servindo pessoas tão
invisíveis quanto ele, ainda assim, a única coisa que notavam eram suas
mãos. Estas sim, respeitadas como deidades logo que saciavam as bocas
famintas. Lá, ele quase tinha um nome. Era chamado de: "Ei, você!". Era
perfeito. Nome e sobrenome.
Estava quase
feliz: tinha um nome, partes de seu corpo eram notadas e estava mudando o
bairro com pequenas ações, que se praticadas por todos mudariam o mundo. Mas
ainda lhe faltava algo. Seu sonho. Sua existência.
Se você estivesse
em um ônibus qualquer e, por algum acidente, ele estivesse sentado ao
seu lado e você, buscando olhar a janela, o olhasse nos olhos, veria através do
cansaço e das remelas mal limpadas um ínfimo brilho, uma estranha beleza
inexplicável, a inocência de um indivíduo que, apesar de moribundo, ainda
sonha. Esse estranho brilho lhe faria apaixonar-se por aquela criatura, se você
apenas o fitasse por mais alguns instantes. Mas seu amigo lhe respondeu no
WhatsApp e você voltou ao seu mundo atemporal e alienado, perdido entre sonhos não sonhados. E foi assim que você ignorou aquele sujeito inexistente
ao teu lado.
Ele - que só
ganhou esta referência com letra maiúscula porque está, por conveniência, no
começo do parágrafo - voltou à sua cama. Exausto depois do dia
corrido, deitou-se pela última vez. Olhou pelo buraco que há de ter sido uma
janela um dia e viu o relógio digital no viaduto, revelando somente a
hora, pois o termômetro estava quebrado: 25:60. Hora de sonhar, pensou. Olhou
para o teto. E viu o teto. Queria mais, ansiava por mais. Respirou fundo e
tentou sonhar. Ver além do mofo esverdeado. Conseguiu,
como ainda lhe era de costume, mas o resultado o surpreendeu: não viu
as estrelas. Enxergou algo que ninguém jamais havia reparado: viu a si
mesmo. Não por acidente ou necessidade, viu-se de verdade; ouviu-se, quando ninguém havia ouvido antes; e admirou-se.
Este seria seu
último dia. Desapareceria por completo. Olhando para o alto, vendo-se olhar
para baixo. Suspirou com dificuldade, o ar recusava a encher-lhe os pulmões.
Uma única gota de lágrima suicidou-se de dentro de seus olhos. Percebeu que ele
havia caído do pico do abismo das estrelas para dentro de si, atravessando
finalmente o teto podre. Alguém, pela primeira vez, o via. Alguém, pela primeira
vez, o ouvia. Alguém, pela primeira vez, o sentia. Seu corpo, pela primeira vez,
estava presente. Pela primeira vez, realizou um sonho. Enfim, existiu.
Assinar:
Postagens (Atom)

