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segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Ela, A Devoradora de Sonhos

Com seu olhar mefistofélico, ela debocha de sua incapacidade de vencê-la. Ela sempre estará lá, em seus mais medonhos pesadelos. Ela: a arqui-inimiga dos dedos que anseiam dançar no teclado; da caneta que suspira ao se deparar com seu toque; de qualquer escritor, pseudo ou amador.

Ela não demonstra piedade. É quase impossível não sucumbir a ela. Você pode tentar fugir, mas ela muda de cor e de forma, sempre o perseguindo. Você a encara, girando a manivela em seu cérebro o mais rápido que pode, buscando uma ideia que possa findar seu sofrimento. Mas custa a vir algo decente que mereça ser transcrito.

Quando finalmente a ideia chega e as palavras começam a brotar, de repente, ela esvaece. E de novo você se depara com a sua nêmese. Enfraquecida pelas meias palavras já escritas, porém ainda mantendo-se firme à sua frente. Ela é a página em branco que parece sugar seus pensamentos e o arremessa em um vácuo mental.

Talvez por esse medo - nem um pouco irracional – de pensar, de criar, de escrever e se expor, muitos não passam da primeira linha. Medo de que os dedos nunca parem de escrever. Medo de criar algo com vida própria, algo que você não controle, que desapegue de sua essência e vire um outro você. Por isso ela é tão forte. Ela se alimenta do seu medo. Você não está olhando para uma simples página em branco, você está olhando o infinito de possibilidades de você mesmo. Não saber o resultado é apavorante.

Você perde o controle novamente. Ela ri. Seus esforços são inúteis quando suas ideias vêm e vão mais rápido do que você pode captá-las. Seus dedos tremem com o desejo de expor palavras que teimam em esconder-se debaixo das sombras do nada. Ela continua a devorar.

Você sente vontade de amassar o papel tingido de meias palavras que não se completam; vontade de deletar o arquivo sem título e confuso que você escreveu sem saber o porquê; vontade de tacar o celular na parede, aberto no bloco de notas com o conto que não passa do meio. É preciso segurar essa vontade impulsiva, mesmo que talvez traga uma satisfação momentânea gostosa. Senão, você será assombrado até o fim das eras por não ter vencido aquela devoradora de sonhos gulosa.

Já é madrugada. Há horas você tenta esculpir esse aglomerado de palavras em um texto coeso. Mas nada de vir um final decente.

Não. Não seja mais um aperitivo daquela vampira. Em vez de sugar sangue de seu pescoço, ela suga a inspiração direto da sua caixa de neurônios. É um desafio constante, mas possível.

Ela está com fome. Você vai escrevendo e voando sobre o teclado, sem rumo. Ela percebe sua dificuldade e espera; espera como uma aranha grudada no teto, olhando a mosca indefesa voar pra lá, e pra cá, pra lá e pra cá. Quanto mais você escreve, mais seu apetite cresce. Ela acredita que você está servindo um banquete abundante para ela degustar-se jocosamente. Até você finalmente... desistir.


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Lagrima de Luz

Chegou à porta de sua casa, colocou a chave na fechadura enferrujada e a girou. Ela fez um ruído quando se abriu. Acendeu o abajur no rack de madeira da sala. Tirou um sapato de cada vez, primeiro o direito e depois o esquerdo. Tirou as meias; desabotoou a camisa social amarrotada e suada; desfivelou seu cinto preto desgastado; tirou a calça devagar - não tinha pressa. Dobrou com muito carinho as roupas e as empilhou na cadeira. Enrolou o cinto e o pousou na pilha. Deixou a carta em cima da mesa. Puxou a outra cadeira e se sentou, sozinho, na escuridão da sala, observando o vasto nada que jazia à sua frente. Chorou.

A única testemunha de sua solidão era a tênue e frágil luz do abajurzinho; que se pudesse, choraria também.

Foto: Maurício Campos

domingo, 15 de janeiro de 2017

Mediocridade Fatal

Deitado na cama, ele observava o céu estrelado mesmo através do teto grosso de cor acinzentada que, aos seus olhos, parecia não existir. Não via o que realmente estava à sua frente, mas sim o que está escondido além do horizonte, o que só quem sonha é capaz de ver.
Sua fisionomia, irrelevante; suas feições, sem importância; sua beleza, inexistente; sua presença, invisível. A única coisa na qual se destacava dos outros era em sua habilidade rara de sonhar. Seu nome, assim como sua presença física, é indiferente à história. Tente não imaginá-lo. Se não conseguir, imagine alguém cuja existência seria ignorada por você e que por mero acaso do destino te esbarrou na rua. Assim, e somente assim, seu rosto seria visto por alguns míseros segundos e esquecido assim que você voltasse a sua distraída caminhada.
Sua linhagem está fadada ao esquecimento. Seu pai, um carteiro de 59 anos ainda não aposentado. Sua mãe, uma secretaria em uma micro consultoria. Ambos simples ferramentas utilizadas como meio de transporte de informações. Tão facilmente substituíveis quanto uma roupa de baixo suja. Existem apenas enquanto carregam informações a seus destinatários. Após a entrega, desaparece-lhes a vida emprestada. Seus avós? Há tempo já esquecidos. Seus irmãos? Se tiver, desconheço.
Voltando a ele, deitado, olhando o teto e vendo estrelas longínquas. Sonhando mudar o mundo. Primeiro, sonhou em inventar uma cura para doenças ainda incuráveis. Trabalhando em uma lanchonete qualquer, tentando bancar seus sonhos, não tinha dinheiro para comprar livros, estudar ou sequer comprar materiais para experimentar. Desistiu desse sonho. Agora já não via tantas estrelas.
Sonhou depois em ganhar o grande prêmio Nobel da paz. Ser visto como um modelo a ser seguido. Mas não era visto nem por quem estava à sua frente e muito menos havia paz dentro de sua própria mente agitada. Então, desistiu desse sonho também. Agora, começou a enxergar uma projeção transparente de um teto, quase como um vidro.
Sonhou simples dessa vez: queria fazer medicina. Como não tinha dinheiro, pois trabalhava em uma lanchonete qualquer - que comprava seus hambúrgueres do mercadinho da esquina, que os comprava dos rapazes da rua de baixo, que, por sua vez, os roubavam da fábrica de carne do outro quarteirão e os vendiam pelo preço que realmente deveriam ser vendidos para a lanchonete - que não o pagava como deveria ser pago. Não podia fazer aulas particulares e nem entrar em uma faculdade particular. Estudou sozinho, ser ter quem o ajudasse. Mesmo assim, estudou muito, mas o vestibular, assim como todas as outras entidades deste planeta, não notou sua presença. Logo, desistiu desse sonho também. Agora surgiu uma mancha acinzentada que tapava-lhe a visão das opacas estrelas, que estavam cada vez mais longe.
Sonhou menor dessa vez. Com algo que não precisasse de muito dinheiro e nem de muitos estudos. Bastava vontade - e isso ele tinha de sobra. Queria fundar uma ONG. Faltava-lhe uma causa e gente que quisesse ajudar. A causa, achou sem problemas. Quem quisesse o ajudar, teve problemas em achar. Não demorou muito até que desistisse desse sonho também. E assim, o teto tornou-se dolorosamente visível; a única luz que era possível enxergar agora - quase totalmente absorvida pelo teto acinzentado - era a luz alaranjada que saía do abajur barato, que jazia sobre a cômoda ainda mais barata ao lado da cama, que até hoje não se sabe como conseguia suportar o peso do saco d'água que nela se deitava todas as noites.
Por fim, passou a ter o sonho - gigante ou minúsculo - de simplesmente existir. Era voluntário em um desses restaurantes que servem comida por um real. Mesmo servindo pessoas tão invisíveis quanto ele, ainda assim, a única coisa que notavam eram suas mãos. Estas sim, respeitadas como deidades logo que saciavam as bocas famintas. Lá, ele quase tinha um nome. Era chamado de: "Ei, você!". Era perfeito. Nome e sobrenome.
Estava quase feliz: tinha um nome, partes de seu corpo eram notadas e estava mudando o bairro com pequenas ações, que se praticadas por todos mudariam o mundo. Mas ainda lhe faltava algo. Seu sonho. Sua existência.
Se você estivesse em um ônibus qualquer e, por algum acidente, ele estivesse sentado ao seu lado e você, buscando olhar a janela, o olhasse nos olhos, veria através do cansaço e das remelas mal limpadas um ínfimo brilho, uma estranha beleza inexplicável, a inocência de um indivíduo que, apesar de moribundo, ainda sonha. Esse estranho brilho lhe faria apaixonar-se por aquela criatura, se você apenas o fitasse por mais alguns instantes. Mas seu amigo lhe respondeu no WhatsApp e você voltou ao seu mundo atemporal e alienado, perdido entre sonhos não sonhados. E foi assim que você ignorou aquele sujeito inexistente ao teu lado.
Ele - que só ganhou esta referência com letra maiúscula porque está, por conveniência, no começo do parágrafo - voltou à sua cama. Exausto depois do dia corrido, deitou-se pela última vez. Olhou pelo buraco que há de ter sido uma janela um dia e viu o relógio digital no viaduto, revelando somente a hora, pois o termômetro estava quebrado: 25:60. Hora de sonhar, pensou. Olhou para o teto. E viu o teto. Queria mais, ansiava por mais. Respirou fundo e tentou sonhar. Ver além do mofo esverdeado. Conseguiu, como ainda lhe era de costume, mas o resultado o surpreendeu: não viu as estrelas. Enxergou algo que ninguém jamais havia reparado: viu a si mesmo. Não por acidente ou necessidade, viu-se de verdade; ouviu-se, quando ninguém havia ouvido antes; e admirou-se.
Este seria seu último dia. Desapareceria por completo. Olhando para o alto, vendo-se olhar para baixo. Suspirou com dificuldade, o ar recusava a encher-lhe os pulmões. Uma única gota de lágrima suicidou-se de dentro de seus olhos. Percebeu que ele havia caído do pico do abismo das estrelas para dentro de si, atravessando finalmente o teto podre. Alguém, pela primeira vez, o via. Alguém, pela primeira vez, o ouvia. Alguém, pela primeira vez, o sentia. Seu corpo, pela primeira vez, estava presente. Pela primeira vez, realizou um sonho. Enfim, existiu.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Infinita Estrada


Sozinho, flutuando por essa estrada escura que parece nunca terminar, fico a observar as montanhas inertes e as árvores longínquas. Nada muda, nada se mexe, nada vive.
O velocímetro marca cem quilômetros por hora, mas me sinto travado em meio aos ponteiros de um relógio quebrado, que se não estão completamente parados, estão tão rápidos que a sua passagem se torna imperceptível. Todos os outros relógios pareciam funcionar, menos o meu.
Abro a janela do carro buscando a saudação da brisa. Ela me ignora; nem mesmo uma gotícula de chuva ousa tocar-me a face adormecida. Busco sentir-me vivo, mas só me deparo com o vazio. Os faróis iluminam a estrada asfaltada com sonhos insonháveis. E por mais rápido que eu esteja, a estrada corre à minha frente, sem se modificar, sem fazer curvas, somente se alongando em linha reta, em direção à escuridão.
Piso naquele acelerador com todas as minhas forças, começo a correr até o meu motor não aguentar mais. De nada adianta, o velocímetro continua a subir, mas a estrada segue imutável, as montanhas seguem estáticas ao horizonte, as árvores continuam me escarnecendo ao longe - e eu continuo insípido.
Observando o abismo que corria paralelo à estrada, um pensamento obscuro passou-me pela cabeça: será que se eu criar uma curva, aqui e agora, esse cenário mórbido mudará? Assim, de repente, meu coração bateu um pouco mais rápido. Era o primeiro mísero sinal de vida que senti desde que peguei essa maldita estrada. Será que assim como Ícaro, essa minha tentativa de voar culminaria em minha tragédia?
Mas se apenas a ideia de voar por esse precipício já me causou certa emoção, no momento em que esse carro decolar dessa estrada sem fim, me sentirei vivo, mesmo que por alguns instantes. Cento e noventa quilômetros por hora, marcava o velocímetro. Certamente flutuaria alguns segundos antes de atingir o chão se me jogasse daqui.
Meu coração começou a bater mais forte, a ideia começava a tomar forma. Meus braços já ameaçavam virar esse volante, arremessar-me contra o precipício, desafiar o vento com as minhas asas de ferro. Foi então que a ideia tomou conta de meu corpo - sem a menor resistência. Havia quebrado a linha, estava agora criando o meu próprio caminho. Sai daquela estrada de trevas, e voei.
A brisa, que se esquivava de mim, agora foi atacada de surpresa; a chuva que me renunciava o toque, agora foi agarrada. Decolar daquela estrada sem fim não me trouxe nada além de gozo.
Com a cara esticada para fora da janela do meu pequeno avião improvisado, um sorriso largo estampado na cara, o vento penteando-me os cabelos, a chuva molhando-me a pele quente.

Venci a estrada. Venci o tempo - que antes parecia não existir -, agora ele estava dançando uma lenta valsa comigo. Os faróis que antes olhavam cabisbaixos para a estrada interminável, agora iluminavam a vasta noite. Senti a gravidade começando seu trabalho, já havia permitido eu aproveitar minha jogada suicida, agora ela daria o xeque-mate. Foram os melhores três segundos da minha vida; os únicos realmente vividos.