Com seu olhar
mefistofélico, ela debocha de sua incapacidade de vencê-la. Ela sempre estará
lá, em seus mais medonhos pesadelos. Ela: a arqui-inimiga dos dedos que anseiam
dançar no teclado; da caneta que suspira ao se deparar com seu toque; de
qualquer escritor, pseudo ou amador.
Ela não demonstra piedade. É quase impossível não sucumbir a ela. Você
pode tentar fugir, mas ela muda de cor e de forma, sempre o perseguindo. Você a
encara, girando a manivela em seu cérebro o mais rápido que pode, buscando uma ideia
que possa findar seu sofrimento. Mas custa a vir algo decente que mereça ser
transcrito.
Quando finalmente a ideia chega e as palavras começam a brotar, de
repente, ela esvaece. E de novo você se depara com a sua nêmese. Enfraquecida
pelas meias palavras já escritas, porém ainda mantendo-se firme à sua frente.
Ela é a página em branco que parece sugar seus pensamentos e o arremessa em um
vácuo mental.
Talvez por esse medo - nem um pouco irracional – de pensar, de criar, de
escrever e se expor, muitos não passam da primeira linha. Medo de que os dedos
nunca parem de escrever. Medo de criar algo com vida própria, algo que você não
controle, que desapegue de sua essência e vire um outro você. Por isso ela é
tão forte. Ela se alimenta do seu medo. Você não está olhando para uma simples
página em branco, você está olhando o infinito de possibilidades de você mesmo.
Não saber o resultado é apavorante.
Você perde o controle novamente. Ela ri. Seus esforços são inúteis
quando suas ideias vêm e vão mais rápido do que você pode captá-las. Seus dedos
tremem com o desejo de expor palavras que teimam em esconder-se debaixo das
sombras do nada. Ela continua a devorar.
Você sente vontade de amassar o papel tingido de meias palavras que não
se completam; vontade de deletar o arquivo sem título e confuso que você
escreveu sem saber o porquê; vontade de tacar o celular na parede, aberto no
bloco de notas com o conto que não passa do meio. É preciso segurar essa
vontade impulsiva, mesmo que talvez traga uma satisfação momentânea gostosa.
Senão, você será assombrado até o fim das eras por não ter vencido aquela
devoradora de sonhos gulosa.
Já é madrugada. Há horas você tenta esculpir esse aglomerado de palavras
em um texto coeso. Mas nada de vir um final decente.
Não. Não seja mais um aperitivo daquela vampira. Em vez de sugar sangue
de seu pescoço, ela suga a inspiração direto da sua caixa de neurônios. É um
desafio constante, mas possível.
Ela está com fome. Você vai escrevendo e voando sobre o teclado, sem
rumo. Ela percebe sua dificuldade e espera; espera como uma aranha grudada no
teto, olhando a mosca indefesa voar pra lá, e pra cá, pra lá e pra cá. Quanto
mais você escreve, mais seu apetite cresce. Ela acredita que você está servindo
um banquete abundante para ela degustar-se jocosamente. Até você finalmente...
desistir.
