sábado, 23 de junho de 2018

O Abate

Ele estava pendurado de cabeça para baixo, desacordado. Lentamente, recobrou seus sentidos. Primeiro, escutou o ronco rouco de um motor, seguido pelo tinir de correntes. Depois, se deu conta de um fedor horrível de carniça, misturado com um cheiro forte de produtos de limpeza - talvez como uma tentativa de mascarar a putrefação. Por último, sentiu um líquido morno e viscoso escorrendo em seu pescoço. Um sabor de ferro invadia sua boca.

Abrindo vagarosamente os olhos, viu um feixe de luz que passava espremido pela porta semi-aberta à sua frente. Não conseguia mexer-se. Estava completamente inerte. Todo esforço era inútil, seu corpo não respondia. Com exceção de seus olhos. 

Ainda não se dera conta do que estava acontecendo. Apenas sentia náusea, dor e solidão. Assim que o estado de choque começou a esvair-se, veio o medo, o pânico e o horror. Seus olhos, antes brandos e modorrentos, agora escaneavam desesperadamente o ambiente escuro em busca de algo ou alguém que o salvasse. Subitamente, os motores pararam. O silêncio infestou o abatedouro. Ensurdecedor.

Ouviu passos. Seus olhos rapidamente se fixaram com esperança na porta à sua frente. Esta abriu-se lentamente – pareceram-lhe horas – até que a silhueta de um homem se revelou. A luz incomodou seus olhos a princípio, mas o horror e o pânico agora foram substituídos pelo sentimento de alívio. Se prestasse bem atenção, neste momento seria possível perceber um leve sorriso delineando-se em sua boca ensanguentada. Seus olhos suplicavam pela salvação, ele tentou gritar:

- Socorro! - Mas foi patético, somente um grunhido incompreensível foi projetado de sua boca entupida de sangue, criando uma pífia bolha vermelha.

Sua esperança logo desapareceu quando viu o olhar gelado do homem parado à porta e sua expressão oca. Percebeu que sua morte era inevitável e iminente. Voltou ao estado de choque no qual estivera quando ainda recobrava vagarosamente os sentidos. A expectativa havia apenas piorado sua dor. Olhou para baixo e viu que uma poça de sangue jazia sobre seu corpo.

Não sabia o porquê tinha que morrer. Nunca fez mal a ninguém. Mas aquilo era simplesmente o abate de um animal humano; tão irracional quanto os motivos levianos e frívolos que levam nossa espécie à matança caótica. Esse abate não passa de uma banalidade aos olhos de uma sociedade ignóbil e violenta qualquer. E aquele homem acorrentado era apenas uma alma que trocou sorrisos com a morte em alguma esquina. Não há o que refletir aqui. Ainda assim, havia um resquício de vida naquele pedaço de carne e ossos.

Porém, em seus olhos já não existia aquele pedido por socorro. Seu coração começou desacelerar. O gosto de ferro em sua boca não o incomodava mais. Agora, sentia o sangue escorrer desde o estômago até a ponta de seus dedos oscilantes. O cheiro de carniça predominava sobre o dos produtos de limpeza. Olhando para os lados, ele pôde ver a sala revestida de metal com outros corpos pendurados com as tripas à mostra. Ele não foi a primeira e nem será a última vítima a desaparecer e ser esquecida. O silêncio ecoou em seu cérebro, e lá ficou até o último suspiro.

Enquanto fechava os olhos, já podia sentir sua vida fugir de seu corpo dilacerado. Só então viu a primeira e única expressão no rosto do homem que o observava todo esse tempo, parado na porta, como um abutre: um sorriso sutil no canto esquerdo de sua boca de lábios vermelhos.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Ela, A Devoradora de Sonhos

Com seu olhar mefistofélico, ela debocha de sua incapacidade de vencê-la. Ela sempre estará lá, em seus mais medonhos pesadelos. Ela: a arqui-inimiga dos dedos que anseiam dançar no teclado; da caneta que suspira ao se deparar com seu toque; de qualquer escritor, pseudo ou amador.

Ela não demonstra piedade. É quase impossível não sucumbir a ela. Você pode tentar fugir, mas ela muda de cor e de forma, sempre o perseguindo. Você a encara, girando a manivela em seu cérebro o mais rápido que pode, buscando uma ideia que possa findar seu sofrimento. Mas custa a vir algo decente que mereça ser transcrito.

Quando finalmente a ideia chega e as palavras começam a brotar, de repente, ela esvaece. E de novo você se depara com a sua nêmese. Enfraquecida pelas meias palavras já escritas, porém ainda mantendo-se firme à sua frente. Ela é a página em branco que parece sugar seus pensamentos e o arremessa em um vácuo mental.

Talvez por esse medo - nem um pouco irracional – de pensar, de criar, de escrever e se expor, muitos não passam da primeira linha. Medo de que os dedos nunca parem de escrever. Medo de criar algo com vida própria, algo que você não controle, que desapegue de sua essência e vire um outro você. Por isso ela é tão forte. Ela se alimenta do seu medo. Você não está olhando para uma simples página em branco, você está olhando o infinito de possibilidades de você mesmo. Não saber o resultado é apavorante.

Você perde o controle novamente. Ela ri. Seus esforços são inúteis quando suas ideias vêm e vão mais rápido do que você pode captá-las. Seus dedos tremem com o desejo de expor palavras que teimam em esconder-se debaixo das sombras do nada. Ela continua a devorar.

Você sente vontade de amassar o papel tingido de meias palavras que não se completam; vontade de deletar o arquivo sem título e confuso que você escreveu sem saber o porquê; vontade de tacar o celular na parede, aberto no bloco de notas com o conto que não passa do meio. É preciso segurar essa vontade impulsiva, mesmo que talvez traga uma satisfação momentânea gostosa. Senão, você será assombrado até o fim das eras por não ter vencido aquela devoradora de sonhos gulosa.

Já é madrugada. Há horas você tenta esculpir esse aglomerado de palavras em um texto coeso. Mas nada de vir um final decente.

Não. Não seja mais um aperitivo daquela vampira. Em vez de sugar sangue de seu pescoço, ela suga a inspiração direto da sua caixa de neurônios. É um desafio constante, mas possível.

Ela está com fome. Você vai escrevendo e voando sobre o teclado, sem rumo. Ela percebe sua dificuldade e espera; espera como uma aranha grudada no teto, olhando a mosca indefesa voar pra lá, e pra cá, pra lá e pra cá. Quanto mais você escreve, mais seu apetite cresce. Ela acredita que você está servindo um banquete abundante para ela degustar-se jocosamente. Até você finalmente... desistir.