Quando o dia vira noite
Os lobos saem
Para dançar
E as ovelhas pastoreiam
Rumo ao abismo.
Quando o dia vira noite
O gado cinge seus antolhos
E galopa, crente,
Rumo ao fogo
Disfarçado de salvação.
Quando o dia vira noite
A fé vira ao avesso
Os valores ruem
Os mecanismos se expõem
A cegueira coletiva avulta.
Quando o dia vira noite
Vampiros se deleitam
E suas presas sedentas
Encontram os aldeões
Nas praças, cabanas e vilarejos.
Quando o dia vira noite
O vermelho carrega nostalgia,
Mas esquecemos o sangue rubro
Que cobre as grades e celas
Da nossa própria prisão.
Quando o dia vira noite
Os guardiões revelam-se
Monstros,
E os portões,
O Tártaro.
Quando o dia vira noite
Para onde foge nossa esperança
Se o próprio céu virou inferno?
quarta-feira, 2 de outubro de 2019
sexta-feira, 12 de julho de 2019
CADÊ!?
Às vezes bate uma solidão. Você senta e fica observando as coisas à sua volta. O prato da janta de ontem pra lavar. Os livros ainda não lidos na estante. A toalha pendurada na porta. Seus pés. Está frio hoje, você sente as pontas dos dedos quase congeladas.
Não importa se você acaba de chegar do trabalho, onde as pessoas lhe tratam bem. Não importa se você está rodeado de homens e mulheres no metrô, no ônibus, na rua... Ou se já tem tantos planos para o final de semana que precisa escolher o que vai ter que fazer.
Nada disso importa. Sua solidão é interna. Eterna. É um buraco em você. Não há multidão que preencha esse oco.
Você simplesmente chega e olha a bagunça que precisa arrumar. Pensa no dia agitado. Apenas lê os grupos de WhatsApp, mas não interage. A respiração pesa. O vazio toma conta de você. Não consegue chorar. Não por segurar as lágrimas, mas porque elas simplesmente não chegam.
Você não sente absolutamente nada. A ânsia de existir está lá, mas longe de florescer. Põe a sua música favorita num looping eterno e escreve. E escreve, e escreve, escreve. É estranho... As palavras saem diretamente de suas vísceras, mas não dizem nada. Só reproduzem o vácuo.
Você respira, mas não há sinal de vida. Os pensamentos esboçam um sorriso familiar. Depois, esvaecem. A música recomeça. De novo, e de novo. Você escreve e apaga o final. Não sabe onde isso termina. Se termina.
É um escravo dos dedos dançantes. Estes sim, vivos. Ou, talvez, desesperados.
A angústia enche o peito; o vão ainda existe. Você se pergunta:
- Que merda está acontecendo!? Cadê? Não está aí dentro?
- Cadê o quê?
- Eu. Cadê!?
Não importa se você acaba de chegar do trabalho, onde as pessoas lhe tratam bem. Não importa se você está rodeado de homens e mulheres no metrô, no ônibus, na rua... Ou se já tem tantos planos para o final de semana que precisa escolher o que vai ter que fazer.
Nada disso importa. Sua solidão é interna. Eterna. É um buraco em você. Não há multidão que preencha esse oco.
Você simplesmente chega e olha a bagunça que precisa arrumar. Pensa no dia agitado. Apenas lê os grupos de WhatsApp, mas não interage. A respiração pesa. O vazio toma conta de você. Não consegue chorar. Não por segurar as lágrimas, mas porque elas simplesmente não chegam.
Você não sente absolutamente nada. A ânsia de existir está lá, mas longe de florescer. Põe a sua música favorita num looping eterno e escreve. E escreve, e escreve, escreve. É estranho... As palavras saem diretamente de suas vísceras, mas não dizem nada. Só reproduzem o vácuo.
Você respira, mas não há sinal de vida. Os pensamentos esboçam um sorriso familiar. Depois, esvaecem. A música recomeça. De novo, e de novo. Você escreve e apaga o final. Não sabe onde isso termina. Se termina.
É um escravo dos dedos dançantes. Estes sim, vivos. Ou, talvez, desesperados.
A angústia enche o peito; o vão ainda existe. Você se pergunta:
- Que merda está acontecendo!? Cadê? Não está aí dentro?
- Cadê o quê?
- Eu. Cadê!?
terça-feira, 18 de junho de 2019
A Flor e Os Dois Poetas
Uma praça ao estilo nouveau é o palco.
O show, dois poetas escrevendo uma poesia
sobre uma Flor que brotava bem ao lado da fonte,
no centro da praça ao estilo nouveau.
O primeiro, amante de Beethoven, Bach e Vivaldi.
Acadêmico estudioso.
Leu tudo de Guimarães Rosa, Fernando Pessoa e Tati Bernardi
Nada a ver, eu sei. Mas a vida às vezes é assim.
O segundo, prodígio. Recém-formado em letras na Université de Paris.
Com bolsa e tudo.
Apreciador de Descártes, Dumas e Edgar Allan Poe.
Chato, eu sei. Mas tem gente que é assim.
Ambos dilaceravam o papel com suas penas,
Tempesteando palavras.
A tinta do tinteiro se contorcia aos espasmos.
Os bancos, clássicos, construídos artesanalmente por um artista de Florença,
davam suporte à criação.
Ambos os poetas se encontravam em fluxo criativo transcendente.
Inspirados por sua musa.
O Sol estagnou-se para observar o duelo que entraria para a história.
Surreal, eu sei. Mas as estrelas tem dessas.
No fim, quem escreveu a melhor poesia?
A Flor.
Simplesmente muda.
sexta-feira, 26 de abril de 2019
COLEÇÃO DA GENTE MESMO
Somos monstros
de Frankenstein.
Nascemos de retalhos
alheios.
Cópias de outras pessoas
que nos dão vida
aos pedaços.
Catando farrapos de
outras almas
que nos atravessam.
Cada estranho pelo caminho
deixa um pedaço de si na gente.
Cada visita que
deixamos entrar
entalha em nossos corações
uma escultura de como
imaginam
que deveríamos ser.
Somos como obras
de arte.
Telas em branco.
Papel sem letras.
Massa amorfa e
cinza.
Que vai pegando emprestado
do pincel
de outras vidas,
Tinta
Letras
e Forma.
A gente
se esculpe,
se corta,
se escreve,
se pinta,
se enquadra,
se grava,
se costura,
se monta
e vira
A gente
E
assim,
de cópia em
cópia,
feitos um pouco de todo mundo,
nos criamos:
Únicos.
de Frankenstein.
Nascemos de retalhos
alheios.
Cópias de outras pessoas
que nos dão vida
aos pedaços.
Catando farrapos de
outras almas
que nos atravessam.
Cada estranho pelo caminho
deixa um pedaço de si na gente.
Cada visita que
deixamos entrar
entalha em nossos corações
uma escultura de como
imaginam
que deveríamos ser.
Somos como obras
de arte.
Telas em branco.
Papel sem letras.
Massa amorfa e
cinza.
Que vai pegando emprestado
do pincel
de outras vidas,
Tinta
Letras
e Forma.
A gente
se esculpe,
se corta,
se escreve,
se pinta,
se enquadra,
se grava,
se costura,
se monta
e vira
A gente
E
assim,
de cópia em
cópia,
feitos um pouco de todo mundo,
nos criamos:
Únicos.
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