Às vezes bate uma solidão. Você senta e fica observando as coisas à sua volta. O prato da janta de ontem pra lavar. Os livros ainda não lidos na estante. A toalha pendurada na porta. Seus pés. Está frio hoje, você sente as pontas dos dedos quase congeladas.
Não importa se você acaba de chegar do trabalho, onde as pessoas lhe tratam bem. Não importa se você está rodeado de homens e mulheres no metrô, no ônibus, na rua... Ou se já tem tantos planos para o final de semana que precisa escolher o que vai ter que fazer.
Nada disso importa. Sua solidão é interna. Eterna. É um buraco em você. Não há multidão que preencha esse oco.
Você simplesmente chega e olha a bagunça que precisa arrumar. Pensa no dia agitado. Apenas lê os grupos de WhatsApp, mas não interage. A respiração pesa. O vazio toma conta de você. Não consegue chorar. Não por segurar as lágrimas, mas porque elas simplesmente não chegam.
Você não sente absolutamente nada. A ânsia de existir está lá, mas longe de florescer. Põe a sua música favorita num looping eterno e escreve. E escreve, e escreve, escreve. É estranho... As palavras saem diretamente de suas vísceras, mas não dizem nada. Só reproduzem o vácuo.
Você respira, mas não há sinal de vida. Os pensamentos esboçam um sorriso familiar. Depois, esvaecem. A música recomeça. De novo, e de novo. Você escreve e apaga o final. Não sabe onde isso termina. Se termina.
É um escravo dos dedos dançantes. Estes sim, vivos. Ou, talvez, desesperados.
A angústia enche o peito; o vão ainda existe. Você se pergunta:
- Que merda está acontecendo!? Cadê? Não está aí dentro?
- Cadê o quê?
- Eu. Cadê!?
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sexta-feira, 12 de julho de 2019
domingo, 2 de abril de 2017
Duelo na Madrugada
Foi depois da 1h da manhã. Eu
estava com insônia e decidi tentar dormir ouvindo um Jazz ou Blues. Mas havia
esquecido meus fones de ouvido no carro. Fui buscar. A rua estava sem
movimento, claro. Era um bairro pacato, porém haviam relatos de assaltos à mão
armada na região recentemente. Não dei ouvidos.
Fui até lá e entrei no meu Celta para
buscar os fones. Estava com dificuldade de encontrá-los. De repente, escutei um
carro subindo a rua; ele parou subitamente à frente do meu. Achei estranho e
desliguei a luz interna. O carro permaneceu imóvel: era um Palio detonado, cinza.
Coloquei a chave na ignição, só por precaução. Fiquei observando. O carro
permaneceu ali, fumegando levemente na garoa da madrugada.
Era uma leve descida, se algo
suspeito fosse de fato acontecer, bastaria eu abaixar o freio de mão e estaria em
movimento. A minha barriga esfriou, meu coração aumentou o ritmo, tirei os
chinelos e pus o pé no acelerador, só por via das dúvidas.
O carro ameaçou partir.
“Desistiu”, pensei.
Mas o Palio demoníaco desceu até
quase ficar paralelo ao meu carro.
“Ele vai me perguntar alguma
coisa? Me assaltar? Ou apenas olhar com seus olhos negros a minha face de
desespero!?” Como não enxergava o motorista, não consegui avaliar minhas
chances de sobrevivência.
O vidro era negro como a noite. Ele
parou antes que eu pudesse observar quem, ou o quê, estava ao volante. Permaneceu
mais alguns segundos ali. Eu estava estacionado em frente a um prédio
residencial, algumas janelas estavam acessas. O resto era só deserto, silêncio
e chuva. Pensei em gritar por socorro, mas apenas observei.
O monstro tornou a subir
vagarosamente a rua ligeiramente inclinada. De súbito, começou a acelerar e
frear, sem sair do lugar. Apenas fazendo barulho com o motor. “Está me desafiando
para um racha? ”. O Mistério sufocava-me,
a garoa e o frio montavam o clima perfeito para uma corrida ilegal, um terror
macabro ou um assassinato qualquer.
O não saber começou a me roer por
dentro: O QUE ELE QUER? O carro cinza começou a fazer a manobra para
estacionar. Ou ele vai estacionar na minha frente ou fazer o “U” e ficar de
frente comigo; posição perfeita para sacar a pistola e tirar a minha vida.
Ele hesitava. Já se passaram um
ou dois minutos naquele duelo nas sombras. Cada um em suas caixas de metal,
esperando a movimentação do outro. Ele estava indeciso.
“Talvez o motorista more aqui e
seja ele quem está com receio de mim: um estranho, sozinho, fuçando em um carro
parado na rua no meio da noite”. Quem, em sã consciência, não pensaria duas
vezes antes de estacionar o carro bem à frente de um potencial psicopata?
O jogo se inverteu. Eu era a
ameaça maior agora – hipoteticamente, claro. Ele não percebeu, mas eu
estava de pijamas, de chinelo e apreensivo.
Talvez o pequeno recuo há pouco era somente uma tentativa de me identificar ou
ver o que eu estava fazendo.
Tudo se resolveu no instante
seguinte: o carro embicou na calçada, quase batendo no portão da garagem do
predinho. Voltou, agressivamente, de ré e ficou atravessado na rua. É agora,
ele resolveu fazer o U e me matar. Vou morrer por causa da porra de uma insônia e
da idiotice por ir buscar fones de ouvido. Minha morte será manchete nos jornais:
MORRE ESTUDANTE QUE
FOI BUSCAR SEUS FONES DE OUVIDO NA MADRUGADA
VESTINDO APENAS SAMBA
CANÇÃO – E SEM CUECA - ELE FOI BALEADO DUAS VEZES NA CABEÇA.
O FONE DE OUVIDO
CONTINUA PERDIDO.
Estava em pânico. Ele havia
fechado a minha passagem pela frente: teria que manobrar de ré, contra a subida. A porta se
abriu e uma fumaça cinza, provavelmente causada pelo calor das chamas do inferno,
se espalhou, encobrindo o motorista. Contornando pela frente do carro,
vagarosamente como um monstro que já fez sua presa, revelou-se uma senhorinha
de uns 70 anos. Ela andava com dificuldade para abrir a garagem do prédio.
Voltou ao carro com seus passos curtos. E, com certa dificuldade, conseguiu
manobrar para entrar na garagem e desaparecer dentro do condomínio.
Minha insônia foi curada naquela
noite.
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
Lagrima de Luz
Chegou à porta de sua casa, colocou a chave na fechadura enferrujada e a girou. Ela fez um ruído quando se abriu. Acendeu o abajur no rack de madeira da sala. Tirou um sapato de cada vez, primeiro o direito e depois o esquerdo. Tirou as meias; desabotoou a camisa social amarrotada e suada; desfivelou seu cinto preto desgastado; tirou a calça devagar - não tinha pressa. Dobrou com muito carinho as roupas e as empilhou na cadeira. Enrolou o cinto e o pousou na pilha. Deixou a carta em cima da mesa. Puxou a outra cadeira e se sentou, sozinho, na escuridão da sala, observando o vasto nada que jazia à sua frente. Chorou.
A única testemunha de sua solidão era a tênue e frágil luz do abajurzinho; que se pudesse, choraria também.
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| Foto: Maurício Campos |
domingo, 22 de janeiro de 2017
A Garota dos Cabelos Vermelhos e as Quatro Danças do Amor
Busco escrever sobre ela. Mas
nada me vem à cabeça. Simples palavras nunca serão suficientes para aprisioná-la
em minha folha de papel ainda em branco. Então, procuro escrever sobre outra
coisa qualquer, para não ousar escrevê-la, mas escrevendo sobre ela.
Tento esclarecer a neblina em
minha mente, depois desse leve devaneio. Mas eis que ela me chega: turva, mas
transparente; simples, mas complicada; absolutamente como ela é e sempre vai
ser. Como falar da menina que rouba minhas palavras? Não ouso roubá-las de
volta. Quem sabe das consequências disso? Talvez não voltem minhas, mas dela. Talvez
voltem tão minhas, que pertençam a ela.
Faço meu bolo de caneca, que fica
pronto em um minuto e dez no micro-ondas e depois pego uma garrafa d’água na
geladeira branca atrás de mim. Procuro me distrair, mas é difícil tirar da
mente aquilo que se quer esquecer. Sendo assim, a
única paz que encontro é escrevê-la. Já havia decidido fazer isso, agora já
era.
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Proponho uma dança: eu e ela, ao som da música criada com meus dedos pulando de tecla em tecla. Conforme nos conduzimos - pas de vous, avec vous, je danse –, deixo que ela entre cada vez mais em meus pensamentos já dominados. Cada passo me deixa mais próximo de seu corpo em chamas, e melhor consigo ver sua máscara. Nesse ritmo descompassado a dança se torna cada vez mais um cabo de guerra, cada um entrando para dentro do outro. Perigoso isso. Hesitei, perdi o passo e quase fui engolido por sua ferocidade. Consegui me conter. Tomei-a nos braços, ignorando o fogo. Deitei-a sobre mim para tornar-se seu apoio. E vi o primeiro fragmento de sua máscara descolar-se de seu rosto lindo.
Fim da primeira dança
Quando tomamos consciência, ela
desapareceu em meio ao escarcéu que nossa dança causou. Então, notei que o
salão estava lotado. Ela estava se escondendo de mim. Recuou ao perceber que a
vi por trás de sua máscara, mesmo que de relance. Não deixava muitos olharem
sua verdadeira face. Atrás daquela máscara confiante e impenetrável, jaz um
lindo rosto frágil e belo.
Tenho um tempo para me recompor. Mas
logo um cenário já começa a se formar: pessoas começam a aparecer para ver-nos
dançar. O salão enche. Estralo meus dedos, me preparando para uma coreografia
um pouco mais elaborada, mais estratégica, mais detalhada e rítmica. A próxima precisa
ser dançada com cautela, é o momento de estudar o oponente.
Enfim ela volta, sua expressão de
confiança e sua postura austera me dizem que ela também está aqui para me
estudar; me avaliar e me provar. Ela avança para cima de mim com rapidez e
graça, tentando me fazer recuar. Sou teimoso e não dou um passo para trás, mas retribuo
a investida. Essa dança será lenta, quase como uma valsa. Mas não chegamos tão
perto um do outro. Essa é hora para nos conhecermos.
Todos os olhos estão em nós, isso
dificulta um pouco a concentração. É algo novo, alguns criticam, outros
incentivam, alguns ainda tentam interferir, tomando a de mim. Desta vez não houveram
falhas nem tropeções, a dança foi sutil e rápida. Fui aprovado.
Fim da segunda dança
A terceira foi a melhor, não
dançamos para ninguém além de nós. Em nenhum desses salões lotados de gente
bisbilhoteira. Dançamos no quarto, a luz tênue da lua era a única que nos
assistia. Quando começou, nos livramos de nossas roupas pesadas e desnecessárias,
nos livramos de tudo que estava por trás da porta fechada do quarto, nos livramos
de nossas mentiras - não para trocarmos nossos segredos, mas porque estávamos
criando um só nosso.
Essa dança apaixonada seguia o
nosso ritmo: intenso, puro. Bailamos na cama até não existir nada além dos
nossos corpos juntos, interligados e quentes. Apaixonados em meio aos lençóis
durante a noite inteira. Nossos movimentos eram sincronizados; nossos giros de
paixão eram súbitos; nossos beijos, intensos. Ao som de suspiros do amor,
dançamos e dançamos.
Nessa noite criamos a nossa
própria coreografia, e a executamos perfeitamente. Ofegantes, trocando olhares,
sem reparar nas máscaras – agora quase imperceptíveis – que ainda cobriam
nossos rostos. Inertes, nos deitamos e olhamo-nos. Eu a via quase por inteiro,
seus lábios vermelhos, seu queixo fino e suas bochechas rosadas; seus olhos,
ainda contornados pela máscara vermelha, escondiam um brilho intoxicante.
Precisava vê-los.
Fim da terceira dança
Ainda era preciso mais uma para
conseguir tirar-lhe a máscara. Esta dança precisaria ser em seu coração - com
cuidado para não quebrar nada. Escolhi a coreografia: perigosa e proibida.
Precisaria dar meu máximo, sem errar, sem hesitar e, mais importante, sem me
perder em seus passos flamejantes.
Que comece.
Puxei-a para cima de mim. Girei-a
e a arremessei para cima, perfeitamente sincronizado com seu carpado, segui a
coreografia com exímio. Sabia qual era o próximo passo para desmascará-la completamente. Ela aterrissou em meus braços, com meu peito encostado no dela; com
meu braço esquerdo a segurando pelas costas a inclinei para trás, deixando-a
nas pontas dos dedos. Ela finalmente confiava completamente em mim, estava
relaxada em meus braços. Era, enfim, minha. Subjugada por minha insistência. Em
seu rosto, o último pedaço da máscara vermelha - que produzia um
contraste enorme com a cor de sua pele branca - ainda contornava seus olhos
gigantes e castanhos. O último pedaço antes de revelar seus mistérios. Desnuda,
seria possível escrevê-la por inteiro. Deslizei lentamente minha mão por sua
barriga, depois seu busto macio, seu pescoço, seu queixo fino, tomei tempo em
seus lábios deliciosos, cada dedo teve seu tempo antes de continuar por seu
rosto, até chegar no fragmento vermelho que ainda faltava para despi-la.
Congelei. Meu coração batia
forte, finalmente depois de todas essas danças, consegui o que queria, o que
muitos já quiseram e não conseguiram. Iria vê-la por inteiro, sem uma máscara
cobrindo suas verdades. Segurei a máscara, só faltava puxá-la e ela iria se
revelar para mim.
Respirei fundo, engoli seco. O
momento havia chegado e eu não conseguia tirar a máscara. Deixei aquele pedaço
com ela. Meu medo de despi-la, de revelar suas verdades, me venceu. Ignorei
tudo o que mais desejava, para poder continuar dançando.
Absorto em seus passos, sua
respiração, seu fogo... seu amor. Não reparei que a minha máscara já havia se
perdido há tempos. Ela me via por inteiro, encarava meu âmago. Não tinha medo,
olhava o abismo em mim, destemida. Queria ter forças para despi-la, assim como
ela tinha feito comigo, não sei quando. Mas fraquejei.
Os passos se perdiam. Não tinha a
força necessária para continuar. Não suportei os giros, as chamas. Minha alma doía,
por mais que quisesse, meus passos não a acompanhavam mais. Eu havia me perdido
tentando encontrá-la. Tropecei em seu amor, e caí.
Fim da última dança
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