terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Lagrima de Luz

Chegou à porta de sua casa, colocou a chave na fechadura enferrujada e a girou. Ela fez um ruído quando se abriu. Acendeu o abajur no rack de madeira da sala. Tirou um sapato de cada vez, primeiro o direito e depois o esquerdo. Tirou as meias; desabotoou a camisa social amarrotada e suada; desfivelou seu cinto preto desgastado; tirou a calça devagar - não tinha pressa. Dobrou com muito carinho as roupas e as empilhou na cadeira. Enrolou o cinto e o pousou na pilha. Deixou a carta em cima da mesa. Puxou a outra cadeira e se sentou, sozinho, na escuridão da sala, observando o vasto nada que jazia à sua frente. Chorou.

A única testemunha de sua solidão era a tênue e frágil luz do abajurzinho; que se pudesse, choraria também.

Foto: Maurício Campos

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