Sozinho,
flutuando por essa estrada escura que parece nunca terminar, fico a observar as
montanhas inertes e as árvores longínquas. Nada muda, nada se mexe, nada vive.
O
velocímetro marca cem quilômetros por hora, mas me sinto travado em meio aos
ponteiros de um relógio quebrado, que se não estão completamente parados, estão
tão rápidos que a sua passagem se torna imperceptível. Todos os outros relógios
pareciam funcionar, menos o meu.
Abro
a janela do carro buscando a saudação da brisa. Ela me ignora; nem mesmo uma
gotícula de chuva ousa tocar-me a face adormecida. Busco sentir-me vivo, mas só
me deparo com o vazio. Os faróis iluminam a estrada asfaltada com sonhos
insonháveis. E por mais rápido que eu esteja, a estrada corre à minha frente, sem
se modificar, sem fazer curvas, somente se alongando em linha reta, em direção
à escuridão.
Piso
naquele acelerador com todas as minhas forças, começo a correr até o meu motor
não aguentar mais. De nada adianta, o velocímetro continua a subir, mas a
estrada segue imutável, as montanhas seguem estáticas ao horizonte, as árvores
continuam me escarnecendo ao longe - e eu continuo insípido.
Observando
o abismo que corria paralelo à estrada, um pensamento obscuro passou-me pela
cabeça: será que se eu criar uma curva, aqui e agora, esse cenário mórbido
mudará? Assim, de repente, meu coração bateu um pouco mais rápido. Era o
primeiro mísero sinal de vida que senti desde que peguei essa maldita estrada.
Será que assim como Ícaro, essa minha tentativa de voar culminaria em minha
tragédia?
Mas
se apenas a ideia de voar por esse precipício já me causou certa emoção, no
momento em que esse carro decolar dessa estrada sem fim, me sentirei vivo, mesmo que por alguns instantes. Cento e noventa quilômetros
por hora, marcava o velocímetro. Certamente flutuaria alguns segundos antes de
atingir o chão se me jogasse daqui.
Meu
coração começou a bater mais forte, a ideia começava a tomar forma. Meus braços
já ameaçavam virar esse volante, arremessar-me contra o precipício, desafiar o
vento com as minhas asas de ferro. Foi então que a ideia tomou conta de meu
corpo - sem a menor resistência. Havia quebrado a linha, estava
agora criando o meu próprio caminho. Sai daquela estrada de trevas, e voei.
A
brisa, que se esquivava de mim, agora foi atacada de surpresa; a chuva que me renunciava
o toque, agora foi agarrada. Decolar daquela estrada sem fim não me trouxe
nada além de gozo.
Com
a cara esticada para fora da janela do meu pequeno avião improvisado, um
sorriso largo estampado na cara, o vento penteando-me os cabelos, a chuva
molhando-me a pele quente.
Venci
a estrada. Venci o tempo - que antes parecia não existir -, agora ele estava
dançando uma lenta valsa comigo. Os faróis que antes olhavam cabisbaixos para a
estrada interminável, agora iluminavam a vasta noite. Senti a gravidade
começando seu trabalho, já havia permitido eu aproveitar minha jogada suicida,
agora ela daria o xeque-mate. Foram os melhores três segundos da minha vida; os
únicos realmente vividos.