Busco escrever sobre ela. Mas
nada me vem à cabeça. Simples palavras nunca serão suficientes para aprisioná-la
em minha folha de papel ainda em branco. Então, procuro escrever sobre outra
coisa qualquer, para não ousar escrevê-la, mas escrevendo sobre ela.
Tento esclarecer a neblina em
minha mente, depois desse leve devaneio. Mas eis que ela me chega: turva, mas
transparente; simples, mas complicada; absolutamente como ela é e sempre vai
ser. Como falar da menina que rouba minhas palavras? Não ouso roubá-las de
volta. Quem sabe das consequências disso? Talvez não voltem minhas, mas dela. Talvez
voltem tão minhas, que pertençam a ela.
Faço meu bolo de caneca, que fica
pronto em um minuto e dez no micro-ondas e depois pego uma garrafa d’água na
geladeira branca atrás de mim. Procuro me distrair, mas é difícil tirar da
mente aquilo que se quer esquecer. Sendo assim, a
única paz que encontro é escrevê-la. Já havia decidido fazer isso, agora já
era.
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Proponho uma dança: eu e ela, ao som da música criada com meus dedos pulando de tecla em tecla. Conforme nos conduzimos - pas de vous, avec vous, je danse –, deixo que ela entre cada vez mais em meus pensamentos já dominados. Cada passo me deixa mais próximo de seu corpo em chamas, e melhor consigo ver sua máscara. Nesse ritmo descompassado a dança se torna cada vez mais um cabo de guerra, cada um entrando para dentro do outro. Perigoso isso. Hesitei, perdi o passo e quase fui engolido por sua ferocidade. Consegui me conter. Tomei-a nos braços, ignorando o fogo. Deitei-a sobre mim para tornar-se seu apoio. E vi o primeiro fragmento de sua máscara descolar-se de seu rosto lindo.
Fim da primeira dança
Quando tomamos consciência, ela
desapareceu em meio ao escarcéu que nossa dança causou. Então, notei que o
salão estava lotado. Ela estava se escondendo de mim. Recuou ao perceber que a
vi por trás de sua máscara, mesmo que de relance. Não deixava muitos olharem
sua verdadeira face. Atrás daquela máscara confiante e impenetrável, jaz um
lindo rosto frágil e belo.
Tenho um tempo para me recompor. Mas
logo um cenário já começa a se formar: pessoas começam a aparecer para ver-nos
dançar. O salão enche. Estralo meus dedos, me preparando para uma coreografia
um pouco mais elaborada, mais estratégica, mais detalhada e rítmica. A próxima precisa
ser dançada com cautela, é o momento de estudar o oponente.
Enfim ela volta, sua expressão de
confiança e sua postura austera me dizem que ela também está aqui para me
estudar; me avaliar e me provar. Ela avança para cima de mim com rapidez e
graça, tentando me fazer recuar. Sou teimoso e não dou um passo para trás, mas retribuo
a investida. Essa dança será lenta, quase como uma valsa. Mas não chegamos tão
perto um do outro. Essa é hora para nos conhecermos.
Todos os olhos estão em nós, isso
dificulta um pouco a concentração. É algo novo, alguns criticam, outros
incentivam, alguns ainda tentam interferir, tomando a de mim. Desta vez não houveram
falhas nem tropeções, a dança foi sutil e rápida. Fui aprovado.
Fim da segunda dança
A terceira foi a melhor, não
dançamos para ninguém além de nós. Em nenhum desses salões lotados de gente
bisbilhoteira. Dançamos no quarto, a luz tênue da lua era a única que nos
assistia. Quando começou, nos livramos de nossas roupas pesadas e desnecessárias,
nos livramos de tudo que estava por trás da porta fechada do quarto, nos livramos
de nossas mentiras - não para trocarmos nossos segredos, mas porque estávamos
criando um só nosso.
Essa dança apaixonada seguia o
nosso ritmo: intenso, puro. Bailamos na cama até não existir nada além dos
nossos corpos juntos, interligados e quentes. Apaixonados em meio aos lençóis
durante a noite inteira. Nossos movimentos eram sincronizados; nossos giros de
paixão eram súbitos; nossos beijos, intensos. Ao som de suspiros do amor,
dançamos e dançamos.
Nessa noite criamos a nossa
própria coreografia, e a executamos perfeitamente. Ofegantes, trocando olhares,
sem reparar nas máscaras – agora quase imperceptíveis – que ainda cobriam
nossos rostos. Inertes, nos deitamos e olhamo-nos. Eu a via quase por inteiro,
seus lábios vermelhos, seu queixo fino e suas bochechas rosadas; seus olhos,
ainda contornados pela máscara vermelha, escondiam um brilho intoxicante.
Precisava vê-los.
Fim da terceira dança
Ainda era preciso mais uma para
conseguir tirar-lhe a máscara. Esta dança precisaria ser em seu coração - com
cuidado para não quebrar nada. Escolhi a coreografia: perigosa e proibida.
Precisaria dar meu máximo, sem errar, sem hesitar e, mais importante, sem me
perder em seus passos flamejantes.
Que comece.
Puxei-a para cima de mim. Girei-a
e a arremessei para cima, perfeitamente sincronizado com seu carpado, segui a
coreografia com exímio. Sabia qual era o próximo passo para desmascará-la completamente. Ela aterrissou em meus braços, com meu peito encostado no dela; com
meu braço esquerdo a segurando pelas costas a inclinei para trás, deixando-a
nas pontas dos dedos. Ela finalmente confiava completamente em mim, estava
relaxada em meus braços. Era, enfim, minha. Subjugada por minha insistência. Em
seu rosto, o último pedaço da máscara vermelha - que produzia um
contraste enorme com a cor de sua pele branca - ainda contornava seus olhos
gigantes e castanhos. O último pedaço antes de revelar seus mistérios. Desnuda,
seria possível escrevê-la por inteiro. Deslizei lentamente minha mão por sua
barriga, depois seu busto macio, seu pescoço, seu queixo fino, tomei tempo em
seus lábios deliciosos, cada dedo teve seu tempo antes de continuar por seu
rosto, até chegar no fragmento vermelho que ainda faltava para despi-la.
Congelei. Meu coração batia
forte, finalmente depois de todas essas danças, consegui o que queria, o que
muitos já quiseram e não conseguiram. Iria vê-la por inteiro, sem uma máscara
cobrindo suas verdades. Segurei a máscara, só faltava puxá-la e ela iria se
revelar para mim.
Respirei fundo, engoli seco. O
momento havia chegado e eu não conseguia tirar a máscara. Deixei aquele pedaço
com ela. Meu medo de despi-la, de revelar suas verdades, me venceu. Ignorei
tudo o que mais desejava, para poder continuar dançando.
Absorto em seus passos, sua
respiração, seu fogo... seu amor. Não reparei que a minha máscara já havia se
perdido há tempos. Ela me via por inteiro, encarava meu âmago. Não tinha medo,
olhava o abismo em mim, destemida. Queria ter forças para despi-la, assim como
ela tinha feito comigo, não sei quando. Mas fraquejei.
Os passos se perdiam. Não tinha a
força necessária para continuar. Não suportei os giros, as chamas. Minha alma doía,
por mais que quisesse, meus passos não a acompanhavam mais. Eu havia me perdido
tentando encontrá-la. Tropecei em seu amor, e caí.
Fim da última dança