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sexta-feira, 12 de julho de 2019

CADÊ!?

Às vezes bate uma solidão. Você senta e fica observando as coisas à sua volta. O prato da janta de ontem pra lavar. Os livros ainda não lidos na estante. A toalha pendurada na porta. Seus pés. Está frio hoje, você sente as pontas dos dedos quase congeladas.
Não importa se você acaba de chegar do trabalho, onde as pessoas lhe tratam bem. Não importa se você está rodeado de homens e mulheres no metrô, no ônibus, na rua... Ou se já tem tantos planos para o final de semana que precisa escolher o que vai ter que fazer.
Nada disso importa. Sua solidão é interna. Eterna. É um buraco em você. Não há multidão que preencha esse oco.
Você simplesmente chega e olha a bagunça que precisa arrumar. Pensa no dia agitado. Apenas lê os grupos de WhatsApp, mas não interage. A respiração pesa. O vazio toma conta de você. Não consegue chorar. Não por segurar as lágrimas, mas porque elas simplesmente não chegam.
Você não sente absolutamente nada. A ânsia de existir está lá, mas longe de florescer. Põe a sua música favorita num looping eterno e escreve. E escreve, e escreve, escreve. É estranho... As palavras saem diretamente de suas vísceras, mas não dizem nada. Só reproduzem o vácuo.
Você respira, mas não há sinal de vida. Os pensamentos esboçam um sorriso familiar. Depois, esvaecem. A música recomeça. De novo, e de novo. Você escreve e apaga o final. Não sabe onde isso termina. Se termina.
É um escravo dos dedos dançantes. Estes sim, vivos. Ou, talvez, desesperados.
A angústia enche o peito; o vão ainda existe. Você se pergunta:
- Que merda está acontecendo!? Cadê? Não está aí dentro?
- Cadê o quê?
- Eu. Cadê!?

domingo, 15 de janeiro de 2017

Mediocridade Fatal

Deitado na cama, ele observava o céu estrelado mesmo através do teto grosso de cor acinzentada que, aos seus olhos, parecia não existir. Não via o que realmente estava à sua frente, mas sim o que está escondido além do horizonte, o que só quem sonha é capaz de ver.
Sua fisionomia, irrelevante; suas feições, sem importância; sua beleza, inexistente; sua presença, invisível. A única coisa na qual se destacava dos outros era em sua habilidade rara de sonhar. Seu nome, assim como sua presença física, é indiferente à história. Tente não imaginá-lo. Se não conseguir, imagine alguém cuja existência seria ignorada por você e que por mero acaso do destino te esbarrou na rua. Assim, e somente assim, seu rosto seria visto por alguns míseros segundos e esquecido assim que você voltasse a sua distraída caminhada.
Sua linhagem está fadada ao esquecimento. Seu pai, um carteiro de 59 anos ainda não aposentado. Sua mãe, uma secretaria em uma micro consultoria. Ambos simples ferramentas utilizadas como meio de transporte de informações. Tão facilmente substituíveis quanto uma roupa de baixo suja. Existem apenas enquanto carregam informações a seus destinatários. Após a entrega, desaparece-lhes a vida emprestada. Seus avós? Há tempo já esquecidos. Seus irmãos? Se tiver, desconheço.
Voltando a ele, deitado, olhando o teto e vendo estrelas longínquas. Sonhando mudar o mundo. Primeiro, sonhou em inventar uma cura para doenças ainda incuráveis. Trabalhando em uma lanchonete qualquer, tentando bancar seus sonhos, não tinha dinheiro para comprar livros, estudar ou sequer comprar materiais para experimentar. Desistiu desse sonho. Agora já não via tantas estrelas.
Sonhou depois em ganhar o grande prêmio Nobel da paz. Ser visto como um modelo a ser seguido. Mas não era visto nem por quem estava à sua frente e muito menos havia paz dentro de sua própria mente agitada. Então, desistiu desse sonho também. Agora, começou a enxergar uma projeção transparente de um teto, quase como um vidro.
Sonhou simples dessa vez: queria fazer medicina. Como não tinha dinheiro, pois trabalhava em uma lanchonete qualquer - que comprava seus hambúrgueres do mercadinho da esquina, que os comprava dos rapazes da rua de baixo, que, por sua vez, os roubavam da fábrica de carne do outro quarteirão e os vendiam pelo preço que realmente deveriam ser vendidos para a lanchonete - que não o pagava como deveria ser pago. Não podia fazer aulas particulares e nem entrar em uma faculdade particular. Estudou sozinho, ser ter quem o ajudasse. Mesmo assim, estudou muito, mas o vestibular, assim como todas as outras entidades deste planeta, não notou sua presença. Logo, desistiu desse sonho também. Agora surgiu uma mancha acinzentada que tapava-lhe a visão das opacas estrelas, que estavam cada vez mais longe.
Sonhou menor dessa vez. Com algo que não precisasse de muito dinheiro e nem de muitos estudos. Bastava vontade - e isso ele tinha de sobra. Queria fundar uma ONG. Faltava-lhe uma causa e gente que quisesse ajudar. A causa, achou sem problemas. Quem quisesse o ajudar, teve problemas em achar. Não demorou muito até que desistisse desse sonho também. E assim, o teto tornou-se dolorosamente visível; a única luz que era possível enxergar agora - quase totalmente absorvida pelo teto acinzentado - era a luz alaranjada que saía do abajur barato, que jazia sobre a cômoda ainda mais barata ao lado da cama, que até hoje não se sabe como conseguia suportar o peso do saco d'água que nela se deitava todas as noites.
Por fim, passou a ter o sonho - gigante ou minúsculo - de simplesmente existir. Era voluntário em um desses restaurantes que servem comida por um real. Mesmo servindo pessoas tão invisíveis quanto ele, ainda assim, a única coisa que notavam eram suas mãos. Estas sim, respeitadas como deidades logo que saciavam as bocas famintas. Lá, ele quase tinha um nome. Era chamado de: "Ei, você!". Era perfeito. Nome e sobrenome.
Estava quase feliz: tinha um nome, partes de seu corpo eram notadas e estava mudando o bairro com pequenas ações, que se praticadas por todos mudariam o mundo. Mas ainda lhe faltava algo. Seu sonho. Sua existência.
Se você estivesse em um ônibus qualquer e, por algum acidente, ele estivesse sentado ao seu lado e você, buscando olhar a janela, o olhasse nos olhos, veria através do cansaço e das remelas mal limpadas um ínfimo brilho, uma estranha beleza inexplicável, a inocência de um indivíduo que, apesar de moribundo, ainda sonha. Esse estranho brilho lhe faria apaixonar-se por aquela criatura, se você apenas o fitasse por mais alguns instantes. Mas seu amigo lhe respondeu no WhatsApp e você voltou ao seu mundo atemporal e alienado, perdido entre sonhos não sonhados. E foi assim que você ignorou aquele sujeito inexistente ao teu lado.
Ele - que só ganhou esta referência com letra maiúscula porque está, por conveniência, no começo do parágrafo - voltou à sua cama. Exausto depois do dia corrido, deitou-se pela última vez. Olhou pelo buraco que há de ter sido uma janela um dia e viu o relógio digital no viaduto, revelando somente a hora, pois o termômetro estava quebrado: 25:60. Hora de sonhar, pensou. Olhou para o teto. E viu o teto. Queria mais, ansiava por mais. Respirou fundo e tentou sonhar. Ver além do mofo esverdeado. Conseguiu, como ainda lhe era de costume, mas o resultado o surpreendeu: não viu as estrelas. Enxergou algo que ninguém jamais havia reparado: viu a si mesmo. Não por acidente ou necessidade, viu-se de verdade; ouviu-se, quando ninguém havia ouvido antes; e admirou-se.
Este seria seu último dia. Desapareceria por completo. Olhando para o alto, vendo-se olhar para baixo. Suspirou com dificuldade, o ar recusava a encher-lhe os pulmões. Uma única gota de lágrima suicidou-se de dentro de seus olhos. Percebeu que ele havia caído do pico do abismo das estrelas para dentro de si, atravessando finalmente o teto podre. Alguém, pela primeira vez, o via. Alguém, pela primeira vez, o ouvia. Alguém, pela primeira vez, o sentia. Seu corpo, pela primeira vez, estava presente. Pela primeira vez, realizou um sonho. Enfim, existiu.