Às vezes bate uma solidão. Você senta e fica observando as coisas à sua volta. O prato da janta de ontem pra lavar. Os livros ainda não lidos na estante. A toalha pendurada na porta. Seus pés. Está frio hoje, você sente as pontas dos dedos quase congeladas.
Não importa se você acaba de chegar do trabalho, onde as pessoas lhe tratam bem. Não importa se você está rodeado de homens e mulheres no metrô, no ônibus, na rua... Ou se já tem tantos planos para o final de semana que precisa escolher o que vai ter que fazer.
Nada disso importa. Sua solidão é interna. Eterna. É um buraco em você. Não há multidão que preencha esse oco.
Você simplesmente chega e olha a bagunça que precisa arrumar. Pensa no dia agitado. Apenas lê os grupos de WhatsApp, mas não interage. A respiração pesa. O vazio toma conta de você. Não consegue chorar. Não por segurar as lágrimas, mas porque elas simplesmente não chegam.
Você não sente absolutamente nada. A ânsia de existir está lá, mas longe de florescer. Põe a sua música favorita num looping eterno e escreve. E escreve, e escreve, escreve. É estranho... As palavras saem diretamente de suas vísceras, mas não dizem nada. Só reproduzem o vácuo.
Você respira, mas não há sinal de vida. Os pensamentos esboçam um sorriso familiar. Depois, esvaecem. A música recomeça. De novo, e de novo. Você escreve e apaga o final. Não sabe onde isso termina. Se termina.
É um escravo dos dedos dançantes. Estes sim, vivos. Ou, talvez, desesperados.
A angústia enche o peito; o vão ainda existe. Você se pergunta:
- Que merda está acontecendo!? Cadê? Não está aí dentro?
- Cadê o quê?
- Eu. Cadê!?
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sexta-feira, 12 de julho de 2019
domingo, 15 de janeiro de 2017
Mediocridade Fatal
Deitado na
cama, ele observava o céu estrelado mesmo através do teto grosso de cor acinzentada que, aos seus olhos, parecia não existir. Não via o que realmente estava à sua frente, mas sim o que está escondido além do horizonte, o que só quem sonha é capaz de ver.
Sua fisionomia,
irrelevante; suas feições, sem importância; sua beleza, inexistente; sua
presença, invisível. A única coisa na qual se destacava dos outros era em sua
habilidade rara de sonhar. Seu nome, assim como sua presença física, é indiferente
à história. Tente não imaginá-lo. Se não conseguir, imagine alguém cuja
existência seria ignorada por você e que por mero acaso do destino te esbarrou
na rua. Assim, e somente assim, seu rosto seria visto por alguns míseros
segundos e esquecido assim que você voltasse a sua distraída caminhada.
Sua linhagem está
fadada ao esquecimento. Seu pai, um carteiro de 59 anos ainda não aposentado. Sua mãe, uma secretaria em uma micro consultoria. Ambos simples ferramentas utilizadas
como meio de transporte de informações. Tão facilmente substituíveis quanto uma
roupa de baixo suja. Existem apenas enquanto carregam informações a seus destinatários. Após a entrega, desaparece-lhes a vida emprestada. Seus avós? Há tempo já esquecidos. Seus irmãos? Se tiver,
desconheço.
Voltando a ele,
deitado, olhando o teto e vendo estrelas longínquas. Sonhando mudar o mundo. Primeiro,
sonhou em inventar uma cura para doenças ainda incuráveis. Trabalhando em uma
lanchonete qualquer, tentando bancar seus sonhos, não tinha dinheiro para
comprar livros, estudar ou sequer comprar materiais para experimentar.
Desistiu desse sonho. Agora já não via tantas estrelas.
Sonhou depois em
ganhar o grande prêmio Nobel da paz. Ser visto como um modelo a ser seguido.
Mas não era visto nem por quem estava à sua frente e muito menos havia paz
dentro de sua própria mente agitada. Então, desistiu desse sonho também. Agora, começou a enxergar uma projeção transparente de um teto, quase como um vidro.
Sonhou simples
dessa vez: queria fazer medicina. Como não tinha dinheiro, pois trabalhava em
uma lanchonete qualquer - que comprava seus hambúrgueres do mercadinho da
esquina, que os comprava dos rapazes da rua de baixo, que, por sua vez, os
roubavam da fábrica de carne do outro quarteirão e os vendiam pelo
preço que realmente deveriam ser vendidos para a lanchonete - que não o pagava como deveria ser
pago. Não podia fazer aulas particulares e nem entrar em uma faculdade particular.
Estudou sozinho, ser ter quem o ajudasse. Mesmo assim, estudou muito, mas o
vestibular, assim como todas as outras entidades deste planeta, não notou sua
presença. Logo, desistiu desse sonho também. Agora surgiu uma mancha
acinzentada que tapava-lhe a visão das opacas estrelas, que estavam cada vez mais
longe.
Sonhou menor dessa
vez. Com algo que não precisasse de muito dinheiro e nem de muitos estudos. Bastava
vontade - e isso ele tinha de sobra. Queria fundar uma ONG. Faltava-lhe uma causa
e gente que quisesse ajudar. A causa, achou sem problemas. Quem quisesse o
ajudar, teve problemas em achar. Não demorou muito até que desistisse desse
sonho também. E assim, o teto tornou-se dolorosamente visível; a única luz que
era possível enxergar agora - quase totalmente absorvida pelo teto acinzentado
- era a luz alaranjada que saía do abajur barato, que jazia sobre a cômoda
ainda mais barata ao lado da cama, que até hoje não se sabe como conseguia
suportar o peso do saco d'água que nela se deitava todas as noites.
Por fim, passou a
ter o sonho - gigante ou minúsculo - de simplesmente existir. Era voluntário em
um desses restaurantes que servem comida por um real. Mesmo servindo pessoas tão
invisíveis quanto ele, ainda assim, a única coisa que notavam eram suas
mãos. Estas sim, respeitadas como deidades logo que saciavam as bocas
famintas. Lá, ele quase tinha um nome. Era chamado de: "Ei, você!". Era
perfeito. Nome e sobrenome.
Estava quase
feliz: tinha um nome, partes de seu corpo eram notadas e estava mudando o
bairro com pequenas ações, que se praticadas por todos mudariam o mundo. Mas
ainda lhe faltava algo. Seu sonho. Sua existência.
Se você estivesse
em um ônibus qualquer e, por algum acidente, ele estivesse sentado ao
seu lado e você, buscando olhar a janela, o olhasse nos olhos, veria através do
cansaço e das remelas mal limpadas um ínfimo brilho, uma estranha beleza
inexplicável, a inocência de um indivíduo que, apesar de moribundo, ainda
sonha. Esse estranho brilho lhe faria apaixonar-se por aquela criatura, se você
apenas o fitasse por mais alguns instantes. Mas seu amigo lhe respondeu no
WhatsApp e você voltou ao seu mundo atemporal e alienado, perdido entre sonhos não sonhados. E foi assim que você ignorou aquele sujeito inexistente
ao teu lado.
Ele - que só
ganhou esta referência com letra maiúscula porque está, por conveniência, no
começo do parágrafo - voltou à sua cama. Exausto depois do dia
corrido, deitou-se pela última vez. Olhou pelo buraco que há de ter sido uma
janela um dia e viu o relógio digital no viaduto, revelando somente a
hora, pois o termômetro estava quebrado: 25:60. Hora de sonhar, pensou. Olhou
para o teto. E viu o teto. Queria mais, ansiava por mais. Respirou fundo e
tentou sonhar. Ver além do mofo esverdeado. Conseguiu,
como ainda lhe era de costume, mas o resultado o surpreendeu: não viu
as estrelas. Enxergou algo que ninguém jamais havia reparado: viu a si
mesmo. Não por acidente ou necessidade, viu-se de verdade; ouviu-se, quando ninguém havia ouvido antes; e admirou-se.
Este seria seu
último dia. Desapareceria por completo. Olhando para o alto, vendo-se olhar
para baixo. Suspirou com dificuldade, o ar recusava a encher-lhe os pulmões.
Uma única gota de lágrima suicidou-se de dentro de seus olhos. Percebeu que ele
havia caído do pico do abismo das estrelas para dentro de si, atravessando
finalmente o teto podre. Alguém, pela primeira vez, o via. Alguém, pela primeira
vez, o ouvia. Alguém, pela primeira vez, o sentia. Seu corpo, pela primeira vez,
estava presente. Pela primeira vez, realizou um sonho. Enfim, existiu.
terça-feira, 10 de janeiro de 2017
"Hey, You!"
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São Paulo, SP, Brasil
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