quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Infinita Estrada


Sozinho, flutuando por essa estrada escura que parece nunca terminar, fico a observar as montanhas inertes e as árvores longínquas. Nada muda, nada se mexe, nada vive.
O velocímetro marca cem quilômetros por hora, mas me sinto travado em meio aos ponteiros de um relógio quebrado, que se não estão completamente parados, estão tão rápidos que a sua passagem se torna imperceptível. Todos os outros relógios pareciam funcionar, menos o meu.
Abro a janela do carro buscando a saudação da brisa. Ela me ignora; nem mesmo uma gotícula de chuva ousa tocar-me a face adormecida. Busco sentir-me vivo, mas só me deparo com o vazio. Os faróis iluminam a estrada asfaltada com sonhos insonháveis. E por mais rápido que eu esteja, a estrada corre à minha frente, sem se modificar, sem fazer curvas, somente se alongando em linha reta, em direção à escuridão.
Piso naquele acelerador com todas as minhas forças, começo a correr até o meu motor não aguentar mais. De nada adianta, o velocímetro continua a subir, mas a estrada segue imutável, as montanhas seguem estáticas ao horizonte, as árvores continuam me escarnecendo ao longe - e eu continuo insípido.
Observando o abismo que corria paralelo à estrada, um pensamento obscuro passou-me pela cabeça: será que se eu criar uma curva, aqui e agora, esse cenário mórbido mudará? Assim, de repente, meu coração bateu um pouco mais rápido. Era o primeiro mísero sinal de vida que senti desde que peguei essa maldita estrada. Será que assim como Ícaro, essa minha tentativa de voar culminaria em minha tragédia?
Mas se apenas a ideia de voar por esse precipício já me causou certa emoção, no momento em que esse carro decolar dessa estrada sem fim, me sentirei vivo, mesmo que por alguns instantes. Cento e noventa quilômetros por hora, marcava o velocímetro. Certamente flutuaria alguns segundos antes de atingir o chão se me jogasse daqui.
Meu coração começou a bater mais forte, a ideia começava a tomar forma. Meus braços já ameaçavam virar esse volante, arremessar-me contra o precipício, desafiar o vento com as minhas asas de ferro. Foi então que a ideia tomou conta de meu corpo - sem a menor resistência. Havia quebrado a linha, estava agora criando o meu próprio caminho. Sai daquela estrada de trevas, e voei.
A brisa, que se esquivava de mim, agora foi atacada de surpresa; a chuva que me renunciava o toque, agora foi agarrada. Decolar daquela estrada sem fim não me trouxe nada além de gozo.
Com a cara esticada para fora da janela do meu pequeno avião improvisado, um sorriso largo estampado na cara, o vento penteando-me os cabelos, a chuva molhando-me a pele quente.

Venci a estrada. Venci o tempo - que antes parecia não existir -, agora ele estava dançando uma lenta valsa comigo. Os faróis que antes olhavam cabisbaixos para a estrada interminável, agora iluminavam a vasta noite. Senti a gravidade começando seu trabalho, já havia permitido eu aproveitar minha jogada suicida, agora ela daria o xeque-mate. Foram os melhores três segundos da minha vida; os únicos realmente vividos.

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