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sábado, 4 de março de 2017

Amor de Prateleira

O "Eu Te Amo" virou commoditie. Encontrado em promoção em qualquer esquina. O Amor, produzido em massa, é industrializado e empacotado numa embalagem bonita. Vazia. E não tem problema se quebrar ou não funcionar. Hoje em dia tudo tem garantia: é só trocar por outro.

Vejo o bem mais precioso da humanidade, distribuído em amostras grátis. Apenas em edição limitada. O para sempre dura só até o próximo lançamento. Depois, sai de linha. Mas só até vir a nova edição de carnaval.

Se acabar o estoque? Quem coleciona amor hoje em dia?

domingo, 22 de janeiro de 2017

A Garota dos Cabelos Vermelhos e as Quatro Danças do Amor


Busco escrever sobre ela. Mas nada me vem à cabeça. Simples palavras nunca serão suficientes para aprisioná-la em minha folha de papel ainda em branco. Então, procuro escrever sobre outra coisa qualquer, para não ousar escrevê-la, mas escrevendo sobre ela.
Tento esclarecer a neblina em minha mente, depois desse leve devaneio. Mas eis que ela me chega: turva, mas transparente; simples, mas complicada; absolutamente como ela é e sempre vai ser. Como falar da menina que rouba minhas palavras? Não ouso roubá-las de volta. Quem sabe das consequências disso? Talvez não voltem minhas, mas dela. Talvez voltem tão minhas, que pertençam a ela.
Faço meu bolo de caneca, que fica pronto em um minuto e dez no micro-ondas e depois pego uma garrafa d’água na geladeira branca atrás de mim. Procuro me distrair, mas é difícil tirar da mente aquilo que se quer esquecer. Sendo assim, a única paz que encontro é escrevê-la. Já havia decidido fazer isso, agora já era.

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Proponho uma dança: eu e ela, ao som da música criada com meus dedos pulando de tecla em tecla. Conforme nos conduzimos - pas de vous, avec vous, je danse –, deixo que ela entre cada vez mais em meus pensamentos já dominados. Cada passo me deixa mais próximo de seu corpo em chamas, e melhor consigo ver sua máscara. Nesse ritmo descompassado a dança se torna cada vez mais um cabo de guerra, cada um entrando para dentro do outro. Perigoso isso. Hesitei, perdi o passo e quase fui engolido por sua ferocidade. Consegui me conter. Tomei-a nos braços, ignorando o fogo. Deitei-a sobre mim para tornar-se seu apoio. E vi o primeiro fragmento de sua máscara descolar-se de seu rosto lindo.

Fim da primeira dança

Quando tomamos consciência, ela desapareceu em meio ao escarcéu que nossa dança causou. Então, notei que o salão estava lotado. Ela estava se escondendo de mim. Recuou ao perceber que a vi por trás de sua máscara, mesmo que de relance. Não deixava muitos olharem sua verdadeira face. Atrás daquela máscara confiante e impenetrável, jaz um lindo rosto frágil e belo.
Tenho um tempo para me recompor. Mas logo um cenário já começa a se formar: pessoas começam a aparecer para ver-nos dançar. O salão enche. Estralo meus dedos, me preparando para uma coreografia um pouco mais elaborada, mais estratégica, mais detalhada e rítmica. A próxima precisa ser dançada com cautela, é o momento de estudar o oponente.
Enfim ela volta, sua expressão de confiança e sua postura austera me dizem que ela também está aqui para me estudar; me avaliar e me provar. Ela avança para cima de mim com rapidez e graça, tentando me fazer recuar. Sou teimoso e não dou um passo para trás, mas retribuo a investida. Essa dança será lenta, quase como uma valsa. Mas não chegamos tão perto um do outro. Essa é hora para nos conhecermos.
Todos os olhos estão em nós, isso dificulta um pouco a concentração. É algo novo, alguns criticam, outros incentivam, alguns ainda tentam interferir, tomando a de mim. Desta vez não houveram falhas nem tropeções, a dança foi sutil e rápida. Fui aprovado.

Fim da segunda dança

A terceira foi a melhor, não dançamos para ninguém além de nós. Em nenhum desses salões lotados de gente bisbilhoteira. Dançamos no quarto, a luz tênue da lua era a única que nos assistia. Quando começou, nos livramos de nossas roupas pesadas e desnecessárias, nos livramos de tudo que estava por trás da porta fechada do quarto, nos livramos de nossas mentiras - não para trocarmos nossos segredos, mas porque estávamos criando um só nosso.
Essa dança apaixonada seguia o nosso ritmo: intenso, puro. Bailamos na cama até não existir nada além dos nossos corpos juntos, interligados e quentes. Apaixonados em meio aos lençóis durante a noite inteira. Nossos movimentos eram sincronizados; nossos giros de paixão eram súbitos; nossos beijos, intensos. Ao som de suspiros do amor, dançamos e dançamos.
Nessa noite criamos a nossa própria coreografia, e a executamos perfeitamente. Ofegantes, trocando olhares, sem reparar nas máscaras – agora quase imperceptíveis – que ainda cobriam nossos rostos. Inertes, nos deitamos e olhamo-nos. Eu a via quase por inteiro, seus lábios vermelhos, seu queixo fino e suas bochechas rosadas; seus olhos, ainda contornados pela máscara vermelha, escondiam um brilho intoxicante. Precisava vê-los.

Fim da terceira dança

Ainda era preciso mais uma para conseguir tirar-lhe a máscara. Esta dança precisaria ser em seu coração - com cuidado para não quebrar nada. Escolhi a coreografia: perigosa e proibida. Precisaria dar meu máximo, sem errar, sem hesitar e, mais importante, sem me perder em seus passos flamejantes.
Que comece.
Puxei-a para cima de mim. Girei-a e a arremessei para cima, perfeitamente sincronizado com seu carpado, segui a coreografia com exímio. Sabia qual era o próximo passo para desmascará-la completamente. Ela aterrissou em meus braços, com meu peito encostado no dela; com meu braço esquerdo a segurando pelas costas a inclinei para trás, deixando-a nas pontas dos dedos. Ela finalmente confiava completamente em mim, estava relaxada em meus braços. Era, enfim, minha. Subjugada por minha insistência. Em seu rosto, o último pedaço da máscara vermelha - que produzia um contraste enorme com a cor de sua pele branca - ainda contornava seus olhos gigantes e castanhos. O último pedaço antes de revelar seus mistérios. Desnuda, seria possível escrevê-la por inteiro. Deslizei lentamente minha mão por sua barriga, depois seu busto macio, seu pescoço, seu queixo fino, tomei tempo em seus lábios deliciosos, cada dedo teve seu tempo antes de continuar por seu rosto, até chegar no fragmento vermelho que ainda faltava para despi-la.
Congelei. Meu coração batia forte, finalmente depois de todas essas danças, consegui o que queria, o que muitos já quiseram e não conseguiram. Iria vê-la por inteiro, sem uma máscara cobrindo suas verdades. Segurei a máscara, só faltava puxá-la e ela iria se revelar para mim.
Respirei fundo, engoli seco. O momento havia chegado e eu não conseguia tirar a máscara. Deixei aquele pedaço com ela. Meu medo de despi-la, de revelar suas verdades, me venceu. Ignorei tudo o que mais desejava, para poder continuar dançando.
Absorto em seus passos, sua respiração, seu fogo... seu amor. Não reparei que a minha máscara já havia se perdido há tempos. Ela me via por inteiro, encarava meu âmago. Não tinha medo, olhava o abismo em mim, destemida. Queria ter forças para despi-la, assim como ela tinha feito comigo, não sei quando. Mas fraquejei.
Os passos se perdiam. Não tinha a força necessária para continuar. Não suportei os giros, as chamas. Minha alma doía, por mais que quisesse, meus passos não a acompanhavam mais. Eu havia me perdido tentando encontrá-la. Tropecei em seu amor, e caí.


Fim da última dança