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sábado, 4 de março de 2017

Amor de Prateleira

O "Eu Te Amo" virou commoditie. Encontrado em promoção em qualquer esquina. O Amor, produzido em massa, é industrializado e empacotado numa embalagem bonita. Vazia. E não tem problema se quebrar ou não funcionar. Hoje em dia tudo tem garantia: é só trocar por outro.

Vejo o bem mais precioso da humanidade, distribuído em amostras grátis. Apenas em edição limitada. O para sempre dura só até o próximo lançamento. Depois, sai de linha. Mas só até vir a nova edição de carnaval.

Se acabar o estoque? Quem coleciona amor hoje em dia?

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Lagrima de Luz

Chegou à porta de sua casa, colocou a chave na fechadura enferrujada e a girou. Ela fez um ruído quando se abriu. Acendeu o abajur no rack de madeira da sala. Tirou um sapato de cada vez, primeiro o direito e depois o esquerdo. Tirou as meias; desabotoou a camisa social amarrotada e suada; desfivelou seu cinto preto desgastado; tirou a calça devagar - não tinha pressa. Dobrou com muito carinho as roupas e as empilhou na cadeira. Enrolou o cinto e o pousou na pilha. Deixou a carta em cima da mesa. Puxou a outra cadeira e se sentou, sozinho, na escuridão da sala, observando o vasto nada que jazia à sua frente. Chorou.

A única testemunha de sua solidão era a tênue e frágil luz do abajurzinho; que se pudesse, choraria também.

Foto: Maurício Campos