Foi depois da 1h da manhã. Eu
estava com insônia e decidi tentar dormir ouvindo um Jazz ou Blues. Mas havia
esquecido meus fones de ouvido no carro. Fui buscar. A rua estava sem
movimento, claro. Era um bairro pacato, porém haviam relatos de assaltos à mão
armada na região recentemente. Não dei ouvidos.
Fui até lá e entrei no meu Celta para
buscar os fones. Estava com dificuldade de encontrá-los. De repente, escutei um
carro subindo a rua; ele parou subitamente à frente do meu. Achei estranho e
desliguei a luz interna. O carro permaneceu imóvel: era um Palio detonado, cinza.
Coloquei a chave na ignição, só por precaução. Fiquei observando. O carro
permaneceu ali, fumegando levemente na garoa da madrugada.
Era uma leve descida, se algo
suspeito fosse de fato acontecer, bastaria eu abaixar o freio de mão e estaria em
movimento. A minha barriga esfriou, meu coração aumentou o ritmo, tirei os
chinelos e pus o pé no acelerador, só por via das dúvidas.
O carro ameaçou partir.
“Desistiu”, pensei.
Mas o Palio demoníaco desceu até
quase ficar paralelo ao meu carro.
“Ele vai me perguntar alguma
coisa? Me assaltar? Ou apenas olhar com seus olhos negros a minha face de
desespero!?” Como não enxergava o motorista, não consegui avaliar minhas
chances de sobrevivência.
O vidro era negro como a noite. Ele
parou antes que eu pudesse observar quem, ou o quê, estava ao volante. Permaneceu
mais alguns segundos ali. Eu estava estacionado em frente a um prédio
residencial, algumas janelas estavam acessas. O resto era só deserto, silêncio
e chuva. Pensei em gritar por socorro, mas apenas observei.
O monstro tornou a subir
vagarosamente a rua ligeiramente inclinada. De súbito, começou a acelerar e
frear, sem sair do lugar. Apenas fazendo barulho com o motor. “Está me desafiando
para um racha? ”. O Mistério sufocava-me,
a garoa e o frio montavam o clima perfeito para uma corrida ilegal, um terror
macabro ou um assassinato qualquer.
O não saber começou a me roer por
dentro: O QUE ELE QUER? O carro cinza começou a fazer a manobra para
estacionar. Ou ele vai estacionar na minha frente ou fazer o “U” e ficar de
frente comigo; posição perfeita para sacar a pistola e tirar a minha vida.
Ele hesitava. Já se passaram um
ou dois minutos naquele duelo nas sombras. Cada um em suas caixas de metal,
esperando a movimentação do outro. Ele estava indeciso.
“Talvez o motorista more aqui e
seja ele quem está com receio de mim: um estranho, sozinho, fuçando em um carro
parado na rua no meio da noite”. Quem, em sã consciência, não pensaria duas
vezes antes de estacionar o carro bem à frente de um potencial psicopata?
O jogo se inverteu. Eu era a
ameaça maior agora – hipoteticamente, claro. Ele não percebeu, mas eu
estava de pijamas, de chinelo e apreensivo.
Talvez o pequeno recuo há pouco era somente uma tentativa de me identificar ou
ver o que eu estava fazendo.
Tudo se resolveu no instante
seguinte: o carro embicou na calçada, quase batendo no portão da garagem do
predinho. Voltou, agressivamente, de ré e ficou atravessado na rua. É agora,
ele resolveu fazer o U e me matar. Vou morrer por causa da porra de uma insônia e
da idiotice por ir buscar fones de ouvido. Minha morte será manchete nos jornais:
MORRE ESTUDANTE QUE
FOI BUSCAR SEUS FONES DE OUVIDO NA MADRUGADA
VESTINDO APENAS SAMBA
CANÇÃO – E SEM CUECA - ELE FOI BALEADO DUAS VEZES NA CABEÇA.
O FONE DE OUVIDO
CONTINUA PERDIDO.
Estava em pânico. Ele havia
fechado a minha passagem pela frente: teria que manobrar de ré, contra a subida. A porta se
abriu e uma fumaça cinza, provavelmente causada pelo calor das chamas do inferno,
se espalhou, encobrindo o motorista. Contornando pela frente do carro,
vagarosamente como um monstro que já fez sua presa, revelou-se uma senhorinha
de uns 70 anos. Ela andava com dificuldade para abrir a garagem do prédio.
Voltou ao carro com seus passos curtos. E, com certa dificuldade, conseguiu
manobrar para entrar na garagem e desaparecer dentro do condomínio.
Minha insônia foi curada naquela
noite.
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