Às vezes bate uma solidão. Você senta e fica observando as coisas à sua volta. O prato da janta de ontem pra lavar. Os livros ainda não lidos na estante. A toalha pendurada na porta. Seus pés. Está frio hoje, você sente as pontas dos dedos quase congeladas.
Não importa se você acaba de chegar do trabalho, onde as pessoas lhe tratam bem. Não importa se você está rodeado de homens e mulheres no metrô, no ônibus, na rua... Ou se já tem tantos planos para o final de semana que precisa escolher o que vai ter que fazer.
Nada disso importa. Sua solidão é interna. Eterna. É um buraco em você. Não há multidão que preencha esse oco.
Você simplesmente chega e olha a bagunça que precisa arrumar. Pensa no dia agitado. Apenas lê os grupos de WhatsApp, mas não interage. A respiração pesa. O vazio toma conta de você. Não consegue chorar. Não por segurar as lágrimas, mas porque elas simplesmente não chegam.
Você não sente absolutamente nada. A ânsia de existir está lá, mas longe de florescer. Põe a sua música favorita num looping eterno e escreve. E escreve, e escreve, escreve. É estranho... As palavras saem diretamente de suas vísceras, mas não dizem nada. Só reproduzem o vácuo.
Você respira, mas não há sinal de vida. Os pensamentos esboçam um sorriso familiar. Depois, esvaecem. A música recomeça. De novo, e de novo. Você escreve e apaga o final. Não sabe onde isso termina. Se termina.
É um escravo dos dedos dançantes. Estes sim, vivos. Ou, talvez, desesperados.
A angústia enche o peito; o vão ainda existe. Você se pergunta:
- Que merda está acontecendo!? Cadê? Não está aí dentro?
- Cadê o quê?
- Eu. Cadê!?
sexta-feira, 12 de julho de 2019
terça-feira, 18 de junho de 2019
A Flor e Os Dois Poetas
Uma praça ao estilo nouveau é o palco.
O show, dois poetas escrevendo uma poesia
sobre uma Flor que brotava bem ao lado da fonte,
no centro da praça ao estilo nouveau.
O primeiro, amante de Beethoven, Bach e Vivaldi.
Acadêmico estudioso.
Leu tudo de Guimarães Rosa, Fernando Pessoa e Tati Bernardi
Nada a ver, eu sei. Mas a vida às vezes é assim.
O segundo, prodígio. Recém-formado em letras na Université de Paris.
Com bolsa e tudo.
Apreciador de Descártes, Dumas e Edgar Allan Poe.
Chato, eu sei. Mas tem gente que é assim.
Ambos dilaceravam o papel com suas penas,
Tempesteando palavras.
A tinta do tinteiro se contorcia aos espasmos.
Os bancos, clássicos, construídos artesanalmente por um artista de Florença,
davam suporte à criação.
Ambos os poetas se encontravam em fluxo criativo transcendente.
Inspirados por sua musa.
O Sol estagnou-se para observar o duelo que entraria para a história.
Surreal, eu sei. Mas as estrelas tem dessas.
No fim, quem escreveu a melhor poesia?
A Flor.
Simplesmente muda.
sexta-feira, 26 de abril de 2019
COLEÇÃO DA GENTE MESMO
Somos monstros
de Frankenstein.
Nascemos de retalhos
alheios.
Cópias de outras pessoas
que nos dão vida
aos pedaços.
Catando farrapos de
outras almas
que nos atravessam.
Cada estranho pelo caminho
deixa um pedaço de si na gente.
Cada visita que
deixamos entrar
entalha em nossos corações
uma escultura de como
imaginam
que deveríamos ser.
Somos como obras
de arte.
Telas em branco.
Papel sem letras.
Massa amorfa e
cinza.
Que vai pegando emprestado
do pincel
de outras vidas,
Tinta
Letras
e Forma.
A gente
se esculpe,
se corta,
se escreve,
se pinta,
se enquadra,
se grava,
se costura,
se monta
e vira
A gente
E
assim,
de cópia em
cópia,
feitos um pouco de todo mundo,
nos criamos:
Únicos.
de Frankenstein.
Nascemos de retalhos
alheios.
Cópias de outras pessoas
que nos dão vida
aos pedaços.
Catando farrapos de
outras almas
que nos atravessam.
Cada estranho pelo caminho
deixa um pedaço de si na gente.
Cada visita que
deixamos entrar
entalha em nossos corações
uma escultura de como
imaginam
que deveríamos ser.
Somos como obras
de arte.
Telas em branco.
Papel sem letras.
Massa amorfa e
cinza.
Que vai pegando emprestado
do pincel
de outras vidas,
Tinta
Letras
e Forma.
A gente
se esculpe,
se corta,
se escreve,
se pinta,
se enquadra,
se grava,
se costura,
se monta
e vira
A gente
E
assim,
de cópia em
cópia,
feitos um pouco de todo mundo,
nos criamos:
Únicos.
sábado, 23 de junho de 2018
O Abate
Ele estava pendurado de cabeça para baixo, desacordado. Lentamente, recobrou seus sentidos. Primeiro, escutou o ronco rouco de um motor, seguido pelo tinir de correntes. Depois, se deu conta de um fedor horrível de carniça, misturado com um cheiro forte de produtos de limpeza - talvez como uma tentativa de mascarar a putrefação. Por último, sentiu um líquido morno e viscoso escorrendo em seu pescoço. Um sabor de ferro invadia sua boca.
Abrindo vagarosamente os olhos, viu um feixe de luz que passava espremido pela porta semi-aberta à sua frente. Não conseguia mexer-se. Estava completamente inerte. Todo esforço era inútil, seu corpo não respondia. Com exceção de seus olhos.
Ainda não se dera conta do que estava acontecendo. Apenas sentia náusea, dor e solidão. Assim que o estado de choque começou a esvair-se, veio o medo, o pânico e o horror. Seus olhos, antes brandos e modorrentos, agora escaneavam desesperadamente o ambiente escuro em busca de algo ou alguém que o salvasse. Subitamente, os motores pararam. O silêncio infestou o abatedouro. Ensurdecedor.
Ouviu passos. Seus olhos rapidamente se fixaram com esperança na porta à sua frente. Esta abriu-se lentamente – pareceram-lhe horas – até que a silhueta de um homem se revelou. A luz incomodou seus olhos a princípio, mas o horror e o pânico agora foram substituídos pelo sentimento de alívio. Se prestasse bem atenção, neste momento seria possível perceber um leve sorriso delineando-se em sua boca ensanguentada. Seus olhos suplicavam pela salvação, ele tentou gritar:
- Socorro! - Mas foi patético, somente um grunhido incompreensível foi projetado de sua boca entupida de sangue, criando uma pífia bolha vermelha.
Sua esperança logo desapareceu quando viu o olhar gelado do homem parado à porta e sua expressão oca. Percebeu que sua morte era inevitável e iminente. Voltou ao estado de choque no qual estivera quando ainda recobrava vagarosamente os sentidos. A expectativa havia apenas piorado sua dor. Olhou para baixo e viu que uma poça de sangue jazia sobre seu corpo.
Não sabia o porquê tinha que morrer. Nunca fez mal a ninguém. Mas aquilo era simplesmente o abate de um animal humano; tão irracional quanto os motivos levianos e frívolos que levam nossa espécie à matança caótica. Esse abate não passa de uma banalidade aos olhos de uma sociedade ignóbil e violenta qualquer. E aquele homem acorrentado era apenas uma alma que trocou sorrisos com a morte em alguma esquina. Não há o que refletir aqui. Ainda assim, havia um resquício de vida naquele pedaço de carne e ossos.
Porém, em seus olhos já não existia aquele pedido por socorro. Seu coração começou desacelerar. O gosto de ferro em sua boca não o incomodava mais. Agora, sentia o sangue escorrer desde o estômago até a ponta de seus dedos oscilantes. O cheiro de carniça predominava sobre o dos produtos de limpeza. Olhando para os lados, ele pôde ver a sala revestida de metal com outros corpos pendurados com as tripas à mostra. Ele não foi a primeira e nem será a última vítima a desaparecer e ser esquecida. O silêncio ecoou em seu cérebro, e lá ficou até o último suspiro.
Enquanto fechava os olhos, já podia sentir sua vida fugir de seu corpo dilacerado. Só então viu a primeira e única expressão no rosto do homem que o observava todo esse tempo, parado na porta, como um abutre: um sorriso sutil no canto esquerdo de sua boca de lábios vermelhos.
Abrindo vagarosamente os olhos, viu um feixe de luz que passava espremido pela porta semi-aberta à sua frente. Não conseguia mexer-se. Estava completamente inerte. Todo esforço era inútil, seu corpo não respondia. Com exceção de seus olhos.
Ainda não se dera conta do que estava acontecendo. Apenas sentia náusea, dor e solidão. Assim que o estado de choque começou a esvair-se, veio o medo, o pânico e o horror. Seus olhos, antes brandos e modorrentos, agora escaneavam desesperadamente o ambiente escuro em busca de algo ou alguém que o salvasse. Subitamente, os motores pararam. O silêncio infestou o abatedouro. Ensurdecedor.
Ouviu passos. Seus olhos rapidamente se fixaram com esperança na porta à sua frente. Esta abriu-se lentamente – pareceram-lhe horas – até que a silhueta de um homem se revelou. A luz incomodou seus olhos a princípio, mas o horror e o pânico agora foram substituídos pelo sentimento de alívio. Se prestasse bem atenção, neste momento seria possível perceber um leve sorriso delineando-se em sua boca ensanguentada. Seus olhos suplicavam pela salvação, ele tentou gritar:
- Socorro! - Mas foi patético, somente um grunhido incompreensível foi projetado de sua boca entupida de sangue, criando uma pífia bolha vermelha.
Sua esperança logo desapareceu quando viu o olhar gelado do homem parado à porta e sua expressão oca. Percebeu que sua morte era inevitável e iminente. Voltou ao estado de choque no qual estivera quando ainda recobrava vagarosamente os sentidos. A expectativa havia apenas piorado sua dor. Olhou para baixo e viu que uma poça de sangue jazia sobre seu corpo.
Não sabia o porquê tinha que morrer. Nunca fez mal a ninguém. Mas aquilo era simplesmente o abate de um animal humano; tão irracional quanto os motivos levianos e frívolos que levam nossa espécie à matança caótica. Esse abate não passa de uma banalidade aos olhos de uma sociedade ignóbil e violenta qualquer. E aquele homem acorrentado era apenas uma alma que trocou sorrisos com a morte em alguma esquina. Não há o que refletir aqui. Ainda assim, havia um resquício de vida naquele pedaço de carne e ossos.
Porém, em seus olhos já não existia aquele pedido por socorro. Seu coração começou desacelerar. O gosto de ferro em sua boca não o incomodava mais. Agora, sentia o sangue escorrer desde o estômago até a ponta de seus dedos oscilantes. O cheiro de carniça predominava sobre o dos produtos de limpeza. Olhando para os lados, ele pôde ver a sala revestida de metal com outros corpos pendurados com as tripas à mostra. Ele não foi a primeira e nem será a última vítima a desaparecer e ser esquecida. O silêncio ecoou em seu cérebro, e lá ficou até o último suspiro.
Enquanto fechava os olhos, já podia sentir sua vida fugir de seu corpo dilacerado. Só então viu a primeira e única expressão no rosto do homem que o observava todo esse tempo, parado na porta, como um abutre: um sorriso sutil no canto esquerdo de sua boca de lábios vermelhos.
segunda-feira, 1 de janeiro de 2018
Ela, A Devoradora de Sonhos
Com seu olhar
mefistofélico, ela debocha de sua incapacidade de vencê-la. Ela sempre estará
lá, em seus mais medonhos pesadelos. Ela: a arqui-inimiga dos dedos que anseiam
dançar no teclado; da caneta que suspira ao se deparar com seu toque; de
qualquer escritor, pseudo ou amador.
Ela não demonstra piedade. É quase impossível não sucumbir a ela. Você
pode tentar fugir, mas ela muda de cor e de forma, sempre o perseguindo. Você a
encara, girando a manivela em seu cérebro o mais rápido que pode, buscando uma ideia
que possa findar seu sofrimento. Mas custa a vir algo decente que mereça ser
transcrito.
Quando finalmente a ideia chega e as palavras começam a brotar, de
repente, ela esvaece. E de novo você se depara com a sua nêmese. Enfraquecida
pelas meias palavras já escritas, porém ainda mantendo-se firme à sua frente.
Ela é a página em branco que parece sugar seus pensamentos e o arremessa em um
vácuo mental.
Talvez por esse medo - nem um pouco irracional – de pensar, de criar, de
escrever e se expor, muitos não passam da primeira linha. Medo de que os dedos
nunca parem de escrever. Medo de criar algo com vida própria, algo que você não
controle, que desapegue de sua essência e vire um outro você. Por isso ela é
tão forte. Ela se alimenta do seu medo. Você não está olhando para uma simples
página em branco, você está olhando o infinito de possibilidades de você mesmo.
Não saber o resultado é apavorante.
Você perde o controle novamente. Ela ri. Seus esforços são inúteis
quando suas ideias vêm e vão mais rápido do que você pode captá-las. Seus dedos
tremem com o desejo de expor palavras que teimam em esconder-se debaixo das
sombras do nada. Ela continua a devorar.
Você sente vontade de amassar o papel tingido de meias palavras que não
se completam; vontade de deletar o arquivo sem título e confuso que você
escreveu sem saber o porquê; vontade de tacar o celular na parede, aberto no
bloco de notas com o conto que não passa do meio. É preciso segurar essa
vontade impulsiva, mesmo que talvez traga uma satisfação momentânea gostosa.
Senão, você será assombrado até o fim das eras por não ter vencido aquela
devoradora de sonhos gulosa.
Já é madrugada. Há horas você tenta esculpir esse aglomerado de palavras
em um texto coeso. Mas nada de vir um final decente.
Não. Não seja mais um aperitivo daquela vampira. Em vez de sugar sangue
de seu pescoço, ela suga a inspiração direto da sua caixa de neurônios. É um
desafio constante, mas possível.
Ela está com fome. Você vai escrevendo e voando sobre o teclado, sem
rumo. Ela percebe sua dificuldade e espera; espera como uma aranha grudada no
teto, olhando a mosca indefesa voar pra lá, e pra cá, pra lá e pra cá. Quanto
mais você escreve, mais seu apetite cresce. Ela acredita que você está servindo
um banquete abundante para ela degustar-se jocosamente. Até você finalmente...
desistir.
quinta-feira, 19 de outubro de 2017
Sacada
Um ser estático observa a dança do tempo
sentado em sua cadeira de plástico.
A sacada é transcendente.
Apoio metafísico.
A metáfora perfeita para
um ser preso e alheio
à passagem do tempo.
O mundo gira, mas a sacada continua ali,
inexorável.
Pedra dura.
Sustento para o corpo inerte
que só observa.
sentado em sua cadeira de plástico.
A sacada é transcendente.
Apoio metafísico.
A metáfora perfeita para
um ser preso e alheio
à passagem do tempo.
O mundo gira, mas a sacada continua ali,
inexorável.
Pedra dura.
Sustento para o corpo inerte
que só observa.
domingo, 2 de abril de 2017
Duelo na Madrugada
Foi depois da 1h da manhã. Eu
estava com insônia e decidi tentar dormir ouvindo um Jazz ou Blues. Mas havia
esquecido meus fones de ouvido no carro. Fui buscar. A rua estava sem
movimento, claro. Era um bairro pacato, porém haviam relatos de assaltos à mão
armada na região recentemente. Não dei ouvidos.
Fui até lá e entrei no meu Celta para
buscar os fones. Estava com dificuldade de encontrá-los. De repente, escutei um
carro subindo a rua; ele parou subitamente à frente do meu. Achei estranho e
desliguei a luz interna. O carro permaneceu imóvel: era um Palio detonado, cinza.
Coloquei a chave na ignição, só por precaução. Fiquei observando. O carro
permaneceu ali, fumegando levemente na garoa da madrugada.
Era uma leve descida, se algo
suspeito fosse de fato acontecer, bastaria eu abaixar o freio de mão e estaria em
movimento. A minha barriga esfriou, meu coração aumentou o ritmo, tirei os
chinelos e pus o pé no acelerador, só por via das dúvidas.
O carro ameaçou partir.
“Desistiu”, pensei.
Mas o Palio demoníaco desceu até
quase ficar paralelo ao meu carro.
“Ele vai me perguntar alguma
coisa? Me assaltar? Ou apenas olhar com seus olhos negros a minha face de
desespero!?” Como não enxergava o motorista, não consegui avaliar minhas
chances de sobrevivência.
O vidro era negro como a noite. Ele
parou antes que eu pudesse observar quem, ou o quê, estava ao volante. Permaneceu
mais alguns segundos ali. Eu estava estacionado em frente a um prédio
residencial, algumas janelas estavam acessas. O resto era só deserto, silêncio
e chuva. Pensei em gritar por socorro, mas apenas observei.
O monstro tornou a subir
vagarosamente a rua ligeiramente inclinada. De súbito, começou a acelerar e
frear, sem sair do lugar. Apenas fazendo barulho com o motor. “Está me desafiando
para um racha? ”. O Mistério sufocava-me,
a garoa e o frio montavam o clima perfeito para uma corrida ilegal, um terror
macabro ou um assassinato qualquer.
O não saber começou a me roer por
dentro: O QUE ELE QUER? O carro cinza começou a fazer a manobra para
estacionar. Ou ele vai estacionar na minha frente ou fazer o “U” e ficar de
frente comigo; posição perfeita para sacar a pistola e tirar a minha vida.
Ele hesitava. Já se passaram um
ou dois minutos naquele duelo nas sombras. Cada um em suas caixas de metal,
esperando a movimentação do outro. Ele estava indeciso.
“Talvez o motorista more aqui e
seja ele quem está com receio de mim: um estranho, sozinho, fuçando em um carro
parado na rua no meio da noite”. Quem, em sã consciência, não pensaria duas
vezes antes de estacionar o carro bem à frente de um potencial psicopata?
O jogo se inverteu. Eu era a
ameaça maior agora – hipoteticamente, claro. Ele não percebeu, mas eu
estava de pijamas, de chinelo e apreensivo.
Talvez o pequeno recuo há pouco era somente uma tentativa de me identificar ou
ver o que eu estava fazendo.
Tudo se resolveu no instante
seguinte: o carro embicou na calçada, quase batendo no portão da garagem do
predinho. Voltou, agressivamente, de ré e ficou atravessado na rua. É agora,
ele resolveu fazer o U e me matar. Vou morrer por causa da porra de uma insônia e
da idiotice por ir buscar fones de ouvido. Minha morte será manchete nos jornais:
MORRE ESTUDANTE QUE
FOI BUSCAR SEUS FONES DE OUVIDO NA MADRUGADA
VESTINDO APENAS SAMBA
CANÇÃO – E SEM CUECA - ELE FOI BALEADO DUAS VEZES NA CABEÇA.
O FONE DE OUVIDO
CONTINUA PERDIDO.
Estava em pânico. Ele havia
fechado a minha passagem pela frente: teria que manobrar de ré, contra a subida. A porta se
abriu e uma fumaça cinza, provavelmente causada pelo calor das chamas do inferno,
se espalhou, encobrindo o motorista. Contornando pela frente do carro,
vagarosamente como um monstro que já fez sua presa, revelou-se uma senhorinha
de uns 70 anos. Ela andava com dificuldade para abrir a garagem do prédio.
Voltou ao carro com seus passos curtos. E, com certa dificuldade, conseguiu
manobrar para entrar na garagem e desaparecer dentro do condomínio.
Minha insônia foi curada naquela
noite.
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