terça-feira, 3 de março de 2020

Conveniência (24 horas)

Era uma lojinha de conveniência, dessas que ficam abertas 24 horas. A placa acima da porta, brilhando como uma luz no fim do túnel, parecia atrair o seu olhar faminto. Com a mesma velocidade de alguém que morre de fome – lenta e dolorosamente –, ele caminhou até a vitrine. Há anos não comia nada além dos restos de lixo encontrados nos becos imundos atrás dos restaurantes; ultimamente, nem isso estava fácil de encontrar.
Tinha uma família para sustentar. Perdeu o emprego, o carro, a casa, a dignidade, a identidade e só lhe restava a vida. Se é que podemos chamar assim. Eu diria que ele perdeu tudo por causa da recessão, das drogas, da família disfuncional ou qualquer outro problema... mas a verdade é que eu nem sei dizer o que realmente aconteceu com esse aí. São tantos. Talvez nem ele pense muito sobre isso. Só pensava na fome que sentia e em seus dois filhos. Estes tentavam adormecer em caixas de papelão encharcadas, em baixo do viaduto virando ali à direita, enquanto a mãe se prostituía por “quinze conto” na esquina.
De volta à lojinha de conveniência, que fica aberta 24 horas. Pela vitrine, ele admirava toda aquela comida: as pizzas, os pães de queijo, os salgados e a torta de frango que o encarava de sua bandeja prateada, todos à venda. Sua barriga se contorceu, soltando um som de lamento. Colocou a mão no bolso da sua velha calça jeans – o único que não estava totalmente rasgado – e viu que estava sem moedas. Não tinha absolutamente nada, só fome. Não recordava a última vez que comeu um frango que não estivesse estragado.
De alguma forma, uma sombra de ideia conseguiu atravessar aquele emaranhado de cabelos sujos e cravar suas unhas nojentas dentro de seu cérebro. Ele nunca havia pensado em roubar o que quer que fosse. Ele não era nenhum ladrão. Ainda existia um vestígio de princípio naquele farrapo de gente. Mas, uma vez tomado pela fome e a falta de esperança, essa ideia é quase irrefreável.
Pensou no aniversário do filho, que já havia passado; pensou na mulher que, para sustentar a família, precisava fazer coisas das quais me recuso a descrever aqui. Assim, decidiu abrir uma exceção à regra. Colocou o capuz na cabeça. Limpou seus princípios no capacho. E entrou.
Se surpreendeu com a quantidade de cheiros maravilhosos e o quanto o ambiente cintilava de limpo. Há décadas ele não entrava em um lugar que não precisasse subornar o agente da vigilância sanitária. Deu uma olhadela em volta. Seu coração disparou, era inexperiente nisso. Seu corpo suava frio. De repente, a euforia tomou conta: percebeu que o balcão estava vazio, não tinha ninguém lá. Poderia pegar tudo o que quisesse – se fosse rápido o suficiente. Um milagre?
Pegou uma sacola que estava descansando ali na frente da caixa registradora - ignorando a mesma. Ele não queria o dinheiro. Ainda lhe restava um pingo de dignidade grudada na sola do sapato furado. Começou a pegar os salgados no balcão. Deu uma bela mordida na torta de frango antes de a colocar na sacola. Estava a dois passos da porta quando decidiu voltar para pegar um presente para o filho. Ao dar meia volta em direção à saída, escutou um *click*.
O dono da loja estava com um revólver apontado em sua direção. Tremia tanto que a arma poderia desmontar a qualquer momento. Um silêncio profundo tomou conta da lojinha de conveniência, aberta 24 horas. Suas respirações ofegantes se tornaram ensurdecedoras. O dono, que só sabe desta pequena parte da história, estava buscando um engradado de cerveja para repor na geladeira quando ouviu um barulho.
O ladrão estava parado na porta, quase paralisado, suando frio, pálido, agarrando a sacola de comida em uma mão e algo metálico - dentro do bolso da blusa - na outra. Ele virou-se lentamente para encarar o cano estendido em sua direção. Estavam em lados opostos da loja, mas ele podia sentir o revólver pressionado contra o seu peito. Empurrando-lhe os pecados pra fora da alma, à força. Metal impenitente, frio.
Começou a deslizar as mãos lentamente para fora do bolso da blusa. Sem tirar os olhos do gordo armado que balançava como gelatina, estacionado ao lado da máquina de Coca-Cola do outro lado. Neste exato momento, não muito longe dali, sua mulher abaixava as calças cáqui de um cliente misógino, no banco traseiro de um Corsa 95, preto. Ao mesmo tempo, a menos de um quarteirão de distância, os seus filhos se abraçavam, sozinhos, sob uma barraca decadente, à espera de um milagre.
O silêncio inundava a lojinha de conveniência (dessas que ficam abertas 24 horas). Ainda olhando no olho da morte, o ladrão pediu a Deus que garantisse à sua família uma vida que ele nunca pôde dar. Já havia tomado uma decisão errada. Agora, não haveria volta. As mãos saíram do bolso da blusa, um objeto negro e metálico reluziu em sua mão.
O próximo segundo foi o mais longo de sua vida: enquanto o gosto da torta de frango ainda pairava em sua boca, e o pedaço descia dançando até seu estômago vazio, o silêncio eterno rompeu-se. Um clarão de luz. Um estrondo! Seco e súbito. Fragrância suave de pólvora. Imediatamente, irrompe um novo silêncio. A arma, sempre obediente ao dedo do homem, não esperou segunda ordem para disparar. Eliminou a ameaça ali mesmo. Na hora.
Era o seu primeiro disparo contra um alvo de carne. A primeira vez que usara tal ferramenta de morte. Havia prometido a si mesmo que seria só para sua própria proteção. Nunca imaginou que realmente precisaria usá-la. Ele sabia que alguém em sua situação era vulnerável. A arma era apenas sua garantia contra um mundo violento. Mas o revólver virgem agora estava manchado de sangue.
A sua primeira vítima. O atirador observou o corpo cair - lentamente. Parecia até coreografado. Espetáculo orquestrado por três irmãs que apreciam as ironias que regem o fio do destino. Só depois que o homem terminou de se estatelar no chão excepcionalmente limpo, foi que o dono conseguiu distinguir o que o indigente segurava entre os dedos calejados. E ainda o apertava com a paixão dos homens que acabaram de perder tudo: uma miniatura de um Mustang 64, preto, de ferro. Era de sua coleção pessoal, que usava para decorar o balcão da lojinha de conveniência, que ficava aberta 24 horas.
Ele não sabia, mas esse seria o presente de aniversário atrasado do filho do falecido. Na outra mão, segurava firmemente uma sacola de papelão, com uma torta de frango e alguns salgados roubados. O ladrão recebeu sua sentença do juiz de ferro.
Paralisado ao lado da máquina de Coca-Cola, com a arma quente em mãos, o homem lembrou que o certificado do registro da arma de fogo ainda estava em aprovação. Mas a bala não pede RG nem CPF, ela ignora a toda poderosa Burocracia e te manda numa passagem só de ida para o paraíso.


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A ambulância chegou meia hora depois, acompanhada de dois carros da polícia. Assim que entraram, se depararam com um gordo chorando, de bruços, aos pés de uma máquina de refrigerante. Com o smartphone na mão e a arma largada aos pés. Os paramédicos repararam primeiro que o corpo fedia a esgoto; que estava mal vestido; que tinha cabelos que nunca foram penteados na vida. Depois, que o sangue fluía do furo do coração do morador de rua. Tingindo de vermelho o chão branco, como um artista pinta uma tela.
Depois do corpo ser levado direto para o necrotério (ele morreu na hora) e do boletim de ocorrência ser devidamente preenchido, amassado e jogado fora, o dia raiou. A rua ganhou vida e os passarinhos cantavam. O atirador saiu da delegacia no dia seguinte, após ser fichado e ter pagado a fiança. Ele aguardaria seu julgamento em liberdade, para depois ser inocentado. Réu primário, legítima defesa ou algo assim. Era um homem livre perante a lei. Somente perante a lei, pois ainda estava acorrentado ao seu remorso.
O arrependimento que tomava conta de seu enevoado coração exigia uma ação. Ele descobriu “onde morava”, e com quem “morava” aquele homem que havia tirado a vida. Chamado André, em homenagem ao apóstolo. Então, tirou seus filhos da rua, os colocou em uma escola. A mãe passou a trabalhar em sua lojinha de conveniência, em um dos três períodos do turno de 24 horas. Pouco tempo depois, os ajudou a alugar uma espécie de apartamento “3 em 1” (quarto-cozinha-banheiro) com vista para o viaduto. Até colocou seu nome como fiador.
Após estes três atos de pura bondade, a culpa logo esvaiu do seu coração, assim como o sangue vazou do pai daquela família. Libertou-se da bola de aço chamada consciência. Pagou sua penitência.
Graças ao falso altruísmo alheio, André teve o seu milagre realizado. Para levar uma vida decente a quem amava, pagou o preço de uma bala no coração. Pode-se dizer que aquele homem faminto, atraído por uma única placa luminosa em uma longa rua escura, encontrou sua luz no fim de uma modesta lojinha de conveniências. Dessas que ficam abertas 24 horas.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Quando o Dia Vira Noite

Quando o dia vira noite
Os lobos saem
Para dançar
E as ovelhas pastoreiam
Rumo ao abismo.

Quando o dia vira noite
O gado cinge seus antolhos
E galopa, crente,
Rumo ao fogo
Disfarçado de salvação.

Quando o dia vira noite
A fé vira ao avesso
Os valores ruem
Os mecanismos se expõem
A cegueira coletiva avulta.

Quando o dia vira noite
Vampiros se deleitam
E suas presas sedentas
Encontram os aldeões
Nas praças, cabanas e vilarejos.

Quando o dia vira noite
O vermelho carrega nostalgia,
Mas esquecemos o sangue rubro
Que cobre as grades e celas
Da nossa própria prisão.

Quando o dia vira noite
Os guardiões revelam-se
Monstros,
E os portões,
O Tártaro.

Quando o dia vira noite
Para onde foge nossa esperança
Se o próprio céu virou inferno?

sexta-feira, 12 de julho de 2019

CADÊ!?

Às vezes bate uma solidão. Você senta e fica observando as coisas à sua volta. O prato da janta de ontem pra lavar. Os livros ainda não lidos na estante. A toalha pendurada na porta. Seus pés. Está frio hoje, você sente as pontas dos dedos quase congeladas.
Não importa se você acaba de chegar do trabalho, onde as pessoas lhe tratam bem. Não importa se você está rodeado de homens e mulheres no metrô, no ônibus, na rua... Ou se já tem tantos planos para o final de semana que precisa escolher o que vai ter que fazer.
Nada disso importa. Sua solidão é interna. Eterna. É um buraco em você. Não há multidão que preencha esse oco.
Você simplesmente chega e olha a bagunça que precisa arrumar. Pensa no dia agitado. Apenas lê os grupos de WhatsApp, mas não interage. A respiração pesa. O vazio toma conta de você. Não consegue chorar. Não por segurar as lágrimas, mas porque elas simplesmente não chegam.
Você não sente absolutamente nada. A ânsia de existir está lá, mas longe de florescer. Põe a sua música favorita num looping eterno e escreve. E escreve, e escreve, escreve. É estranho... As palavras saem diretamente de suas vísceras, mas não dizem nada. Só reproduzem o vácuo.
Você respira, mas não há sinal de vida. Os pensamentos esboçam um sorriso familiar. Depois, esvaecem. A música recomeça. De novo, e de novo. Você escreve e apaga o final. Não sabe onde isso termina. Se termina.
É um escravo dos dedos dançantes. Estes sim, vivos. Ou, talvez, desesperados.
A angústia enche o peito; o vão ainda existe. Você se pergunta:
- Que merda está acontecendo!? Cadê? Não está aí dentro?
- Cadê o quê?
- Eu. Cadê!?

terça-feira, 18 de junho de 2019

A Flor e Os Dois Poetas

Flor à beira do precipício, cor de rosa, com uma lagarta no centro. Uma vista de montanhas, levemente nublada, ao fundo.


Uma praça ao estilo nouveau é o palco.
O show, dois poetas escrevendo uma poesia
sobre uma Flor que brotava bem ao lado da fonte,
no centro da praça ao estilo nouveau.


O primeiro, amante de Beethoven, Bach e Vivaldi.
Acadêmico estudioso.
Leu tudo de Guimarães Rosa, Fernando Pessoa e Tati Bernardi
Nada a ver, eu sei. Mas a vida às vezes é assim.


O segundo, prodígio. Recém-formado em letras na Université de Paris.
Com bolsa e tudo.
Apreciador de Descártes, Dumas e Edgar Allan Poe.
Chato, eu sei. Mas tem gente que é assim.


Ambos dilaceravam o papel com suas penas,
Tempesteando palavras.
A tinta do tinteiro se contorcia aos espasmos.
Os bancos, clássicos, construídos artesanalmente por um artista de Florença,
davam suporte à criação.


Ambos os poetas se encontravam em fluxo criativo transcendente.
Inspirados por sua musa.
O Sol estagnou-se para observar o duelo que entraria para a história.
Surreal, eu sei. Mas as estrelas tem dessas.


No fim, quem escreveu a melhor poesia?
A Flor.
Simplesmente muda.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

COLEÇÃO DA GENTE MESMO

Somos monstros
de Frankenstein.
Nascemos de retalhos
alheios.

Cópias de outras pessoas
que nos dão vida
aos pedaços.

Catando farrapos de
outras almas
que nos atravessam.

Cada estranho pelo caminho
deixa um pedaço de si na gente.
Cada visita que
deixamos entrar
entalha em nossos corações
uma escultura de como
imaginam
que deveríamos ser.

Somos como obras
de arte.
Telas em branco.
Papel sem letras.
Massa amorfa e
cinza.

Que vai pegando emprestado
do pincel
de outras vidas,
Tinta
Letras
e Forma.

A gente
se esculpe,
se corta,
se escreve,
se pinta,
se enquadra,
se grava,
se costura,
se monta
e vira
A gente

E
assim,
de cópia em
cópia,
feitos um pouco de todo mundo,
nos criamos:
Únicos.

sábado, 23 de junho de 2018

O Abate

Ele estava pendurado de cabeça para baixo, desacordado. Lentamente, recobrou seus sentidos. Primeiro, escutou o ronco rouco de um motor, seguido pelo tinir de correntes. Depois, se deu conta de um fedor horrível de carniça, misturado com um cheiro forte de produtos de limpeza - talvez como uma tentativa de mascarar a putrefação. Por último, sentiu um líquido morno e viscoso escorrendo em seu pescoço. Um sabor de ferro invadia sua boca.

Abrindo vagarosamente os olhos, viu um feixe de luz que passava espremido pela porta semi-aberta à sua frente. Não conseguia mexer-se. Estava completamente inerte. Todo esforço era inútil, seu corpo não respondia. Com exceção de seus olhos. 

Ainda não se dera conta do que estava acontecendo. Apenas sentia náusea, dor e solidão. Assim que o estado de choque começou a esvair-se, veio o medo, o pânico e o horror. Seus olhos, antes brandos e modorrentos, agora escaneavam desesperadamente o ambiente escuro em busca de algo ou alguém que o salvasse. Subitamente, os motores pararam. O silêncio infestou o abatedouro. Ensurdecedor.

Ouviu passos. Seus olhos rapidamente se fixaram com esperança na porta à sua frente. Esta abriu-se lentamente – pareceram-lhe horas – até que a silhueta de um homem se revelou. A luz incomodou seus olhos a princípio, mas o horror e o pânico agora foram substituídos pelo sentimento de alívio. Se prestasse bem atenção, neste momento seria possível perceber um leve sorriso delineando-se em sua boca ensanguentada. Seus olhos suplicavam pela salvação, ele tentou gritar:

- Socorro! - Mas foi patético, somente um grunhido incompreensível foi projetado de sua boca entupida de sangue, criando uma pífia bolha vermelha.

Sua esperança logo desapareceu quando viu o olhar gelado do homem parado à porta e sua expressão oca. Percebeu que sua morte era inevitável e iminente. Voltou ao estado de choque no qual estivera quando ainda recobrava vagarosamente os sentidos. A expectativa havia apenas piorado sua dor. Olhou para baixo e viu que uma poça de sangue jazia sobre seu corpo.

Não sabia o porquê tinha que morrer. Nunca fez mal a ninguém. Mas aquilo era simplesmente o abate de um animal humano; tão irracional quanto os motivos levianos e frívolos que levam nossa espécie à matança caótica. Esse abate não passa de uma banalidade aos olhos de uma sociedade ignóbil e violenta qualquer. E aquele homem acorrentado era apenas uma alma que trocou sorrisos com a morte em alguma esquina. Não há o que refletir aqui. Ainda assim, havia um resquício de vida naquele pedaço de carne e ossos.

Porém, em seus olhos já não existia aquele pedido por socorro. Seu coração começou desacelerar. O gosto de ferro em sua boca não o incomodava mais. Agora, sentia o sangue escorrer desde o estômago até a ponta de seus dedos oscilantes. O cheiro de carniça predominava sobre o dos produtos de limpeza. Olhando para os lados, ele pôde ver a sala revestida de metal com outros corpos pendurados com as tripas à mostra. Ele não foi a primeira e nem será a última vítima a desaparecer e ser esquecida. O silêncio ecoou em seu cérebro, e lá ficou até o último suspiro.

Enquanto fechava os olhos, já podia sentir sua vida fugir de seu corpo dilacerado. Só então viu a primeira e única expressão no rosto do homem que o observava todo esse tempo, parado na porta, como um abutre: um sorriso sutil no canto esquerdo de sua boca de lábios vermelhos.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Ela, A Devoradora de Sonhos

Com seu olhar mefistofélico, ela debocha de sua incapacidade de vencê-la. Ela sempre estará lá, em seus mais medonhos pesadelos. Ela: a arqui-inimiga dos dedos que anseiam dançar no teclado; da caneta que suspira ao se deparar com seu toque; de qualquer escritor, pseudo ou amador.

Ela não demonstra piedade. É quase impossível não sucumbir a ela. Você pode tentar fugir, mas ela muda de cor e de forma, sempre o perseguindo. Você a encara, girando a manivela em seu cérebro o mais rápido que pode, buscando uma ideia que possa findar seu sofrimento. Mas custa a vir algo decente que mereça ser transcrito.

Quando finalmente a ideia chega e as palavras começam a brotar, de repente, ela esvaece. E de novo você se depara com a sua nêmese. Enfraquecida pelas meias palavras já escritas, porém ainda mantendo-se firme à sua frente. Ela é a página em branco que parece sugar seus pensamentos e o arremessa em um vácuo mental.

Talvez por esse medo - nem um pouco irracional – de pensar, de criar, de escrever e se expor, muitos não passam da primeira linha. Medo de que os dedos nunca parem de escrever. Medo de criar algo com vida própria, algo que você não controle, que desapegue de sua essência e vire um outro você. Por isso ela é tão forte. Ela se alimenta do seu medo. Você não está olhando para uma simples página em branco, você está olhando o infinito de possibilidades de você mesmo. Não saber o resultado é apavorante.

Você perde o controle novamente. Ela ri. Seus esforços são inúteis quando suas ideias vêm e vão mais rápido do que você pode captá-las. Seus dedos tremem com o desejo de expor palavras que teimam em esconder-se debaixo das sombras do nada. Ela continua a devorar.

Você sente vontade de amassar o papel tingido de meias palavras que não se completam; vontade de deletar o arquivo sem título e confuso que você escreveu sem saber o porquê; vontade de tacar o celular na parede, aberto no bloco de notas com o conto que não passa do meio. É preciso segurar essa vontade impulsiva, mesmo que talvez traga uma satisfação momentânea gostosa. Senão, você será assombrado até o fim das eras por não ter vencido aquela devoradora de sonhos gulosa.

Já é madrugada. Há horas você tenta esculpir esse aglomerado de palavras em um texto coeso. Mas nada de vir um final decente.

Não. Não seja mais um aperitivo daquela vampira. Em vez de sugar sangue de seu pescoço, ela suga a inspiração direto da sua caixa de neurônios. É um desafio constante, mas possível.

Ela está com fome. Você vai escrevendo e voando sobre o teclado, sem rumo. Ela percebe sua dificuldade e espera; espera como uma aranha grudada no teto, olhando a mosca indefesa voar pra lá, e pra cá, pra lá e pra cá. Quanto mais você escreve, mais seu apetite cresce. Ela acredita que você está servindo um banquete abundante para ela degustar-se jocosamente. Até você finalmente... desistir.